Quando todos se sentaram, eu questionei: “Como podemos começar a discutir e a criticar algo como a corrupção
ou a desonestidade se aqui dentro mesmo, entre nós, vocês estão tentando me enganar?” Os rapazes do fundo
enterraram-se sob seus bonés. Algumas garotas olhavam as próprias unhas.
Entretanto, eu não pretendia constrangê-los. Queria que soubessem que não podemos julgar ou condenar os
chamados corruptos enquanto cada um de nós está sempre pronto a se corromper. Por meio ponto! “Muitos de vocês
nem precisam de nota, podem dispensar esse meio ponto sem nenhum problema. E se fosse dinheiro?”, perguntei.“O que vocês fariam por alguns milhões? Leiam aí as notícias que vocês têm em mãos. É disso que elas tratam.
De nós mesmos.”
Tenho um amigo ambientalista que fuma. Outro,
antiamericano convicto, gosta muito de
acessar a internet – em tempo: seu carro é
da nova linha Ford. Geralmente as pessoas
que dizem querer ser “elas mesmas”
são as mais influenciáveis. Um
de meus vizinhos diz que a televisão
é o grande mal do nosso tempo – ele
viu isso num documentário de sua TV
a cabo. Amostras de atitudes e discursos
contraditórios costumam ser extensas
e não se aplicam apenas aos indivíduos
da minha convivência.
Os estudantes aprendem que a incoerência
mata qualquer argumentação. E quem já
deixou a escola deve continuar atento a algo muito
mais grave que uma redação ruim: uma sociedade
formada por nossas sempre justificáveis contradições.
Perce Polegatto é autor de A Conspiração dos
Felizes (Papel Virtual, 2000) e professor em
Ribeirão Preto (SP) no Colégio Auxiliadora
e nas faculdades Reges, Unaerp e
Barão de Mauá.
|