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LITERATURA ESTAMPADA
 


Em 1978, outra obra de Will Eisner, Um Contrato com Deus (1978), veio conferir um novo status aos quadrinhos, popularizando o termo graphic novel ("romance gráfico"), que aparecia na capa do trabalho de Eisner para distingui-lo como “algo mais que uma simples revista em quadrinhos”. Embora muitas fontes creditem a Eisner a criação da expressão, ela já havia sido usada em publicações da década de 60.

 

Fato é que Um Contrato com Deus é uma obra diferencial. Sua temática madura e complexa – conta histórias que focam a vida de pessoas ordinárias no bairro do Bronx, na Nova Iorque dos anos 30 – tem um inequívoco viés literário, aproximando-se do lirismo urbano da obra de autores como os “prébeats” John Fante e J.D. Salinger. O próprio autor disse ter se inspirado nos livros de Lynd Ward, que nesse período produzia romances em xilogravura.


Outras graphic novels de Will Eisner – como O Edifício (1987), No Coração da Tempestade (1991) e Pequenos Milagres (2000) – mantiveram e aprimoraram essa faceta literária. Em Fagin, o Judeu (2003), Eisner recria a história de um personagem do clássico Oliver Twist, de Charles Dickens. Além disso, ele fez também adaptações de textos clássicos, como Moby Dick, de Hermann Melville (com o nome A Baleia Branca, na versão em português da Companhia das Letras, 1998) e Dom Quixote, de Cervantes (OÚltimo Cavaleiro Andante, também da Companhia das Letras, 1999).


Na sua busca por expandir e explorar as possibilidades oferecidas pelas histórias em quadrinhos, Will Eisner atuou como professor na School of Visual Arts de Nova York, e publicou dois trabalhos de cunho teórico e didático sobre o tema: Quadrinhos e Arte Seqüencial (1985) e Narrativas Gráficas (1996).


A inovação underground
Em 1968, as ruas de Paris se tornaram palco de furiosas batalhas campais entre policiais e jovens estudantes universitários, numa espécie de reedição dos ideais revolucionários que derrubaram o Ancien Régime no século 18. Enquanto voavam paralelepípedos, coquetéis molotov e bombas de gás lacrimogêneo na antiga “cidade-luz”, do outro lado do Atlântico, no cruzamento das ruas Haight e Ashbury, em São Francisco, era sintetizada outra vertente do movimento de contestação ao establishment, o flower power.


Meca dos hippies, São Francisco fervilhava de jovens idealistas inconformados com a caretice do american way of life. Entre eles, um desenhista de figura anacronicamente excêntrica, que perambulava pelas ruas vendendo suas revistas em quadrinhos num carrinho de bebê. O artista era Robert Crumb (1943-), e a revista, a Zap Comix.


Com a criação, na década de 50, da Comics Magazine Association of America e seu Comic Code Authority– espécie de certificado de “padrão de qualidade” instituído para controlar as revistas em quadrinhos produzidas nos Estados Unidos –, as publicações eram invariavelmente ingênuas e bemcomportadas, zelosas do padrão burguês socialmente aceitável. Exceção feita à malcomportada Mad, de Harvey Kurtzman (1924-1993) – cujo espírito anárquico serviu de referência a vários artistas dos quadrinhos marginais, incluindo o próprio Crumb.

 

 



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