|
Retomando uma paixão já abordada em livros como Saudades do
Século XX e Carmen: Uma Biografia, o autor lança Um Filme É para
Sempre, coletânea de críticas e ensaios selecionada por Heloísa Seixas
|
Mestre do jornalismo literário Ruy Castro, 58, é daqueles autores que se
identificam profundamente com o local
em que vivem. Pois, apesar de nascido
mineiro de Caratinga, seus livros – todos em catálogo da Companhia
das Letras – ajudaram a construir o
mito de um Rio de Janeiro que ele testemunhou
e já não existe mais. Em
Chega de Saudade (1990) ele conta a
história das figuras da bossa nova que
tiveram seu apogeu naquela cidade.
Personagens muito presentes na então
capital federal também foram alvos
de sua escrita: Carmem Miranda
(Carmen: Uma Biografia, de 2005),
Nelson Rodrigues (O Anjo Pornográfico,
de 1992), Garrincha (Estrela Solitária,
de 1995), Olavo Bilac (Bilac Vê Estrelas,
de 2000) e até mesmo o
Flamengo, time do coração, tornou-se
um de seus títulos. Isso sem falar dos
outros livros que contam histórias da
cidade, como Carnaval de Fogo (2003)
e Ela É Carioca (1999), retrato apaixonado
sobre o bairro de Ipanema.
Mas, além da afetividade carioca,
o autor também é um bom cinéfilo, e
nos presenteou com vários livros sobre
cinema ao longo das três últimas
décadas. E com o raro dom de aliar o
prazer estético de um bom filme de
ficção e o conteúdo mais contundente
do melhor documentário. Sua
mais recente obra, Um Filme É para
Sempre (2006), é uma coletânea de artigos
sobre filmes, a maioria dos anos
80 e 90. A seleção dos textos foi feita,
primeiramente, por Heloisa Seixas,
mulher do escritor. Ambos usaram
uma série de critérios para a depuração
dos artigos. Excluíram, por exemplo,
Hitchcock, Fred Astaire e Mae West – figuras já abordadas no livro
Saudades do Século XX (1994). Por
fim, o autor desenvolveu mais os temas,
ampliando ou unindo textos.
Em entrevista a Discutindo Literatura,
Ruy Castro conta um pouco
sobre essa sua outra paixão: filmes.
DISCUTINDO LITERATURA – Você
começou a escrever no jornal Correio
da Manhã, num momento de efervescência
cultural e grandes mudanças no
cinema (o cinema novo no Brasil, a
nouvelle vague na França).Você se interessava
por esse cinema de transição?
RUY CASTRO – Eu tinha só 19 anos
e participava daquilo. Na verdade, era
uma geração um pouco mais velha que
estava fazendo os filmes mais importantes.
A nouvelle vague, por exemplo,
era algo da minha geração. Mas, ao
mesmo tempo, eu sempre tive grande
interesse pelo cinema do passado.
Além disso, facilitou muito as coisas o
fato de o editor do “Caderno 2” do
Correio ser o Paulo Francis. O que me
aproximou dele foi um artigo meu sobre
um filme do Godard, A Guerra Acabou,
que o José Lino Grünewald publicou na capa do Correio da Manhã no dia
da estréia. Na tarde daquele dia, o Francis
me falou que passaria a comandar
tanto o segundo caderno quanto a revista
Diner’s. Ele me convidou para participar
da equipe da revista e aceitei. Isso tudo
para dizer que o que me aproximou
do Francis foi um filme contemporâneo.
DL – E tinha liberdade para escrever o
que quisesse?
RC – Sim, foi um período muito bom. Na
redação do Correio, à noite, sempre aparecia
um buraco numa das páginas que o
Francis, com aquele jeito dele, pedia para
eu preencher com um artigo sobre qualquer
coisa. Aí eu sentava e escrevia sobre
o Chaplin, por exemplo. Ou então sobre
um filme do Godard que tinha
passado quatro anos antes. Comecei a
escrever sobre filmes que não eram
meus contemporâneos.
|