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DL – Mas os filmes estadunidenses do
final dos anos 60 já o interessavam?
RC – Sim, esse período foi de intensa
mudança no cinema dos Estados Unidos.
Em 66 foi decretado o fim do Código
Hays [código de conduta moral do cinema
estadunidense criado em 1930].
O primeiro filme comercial americano
em que apareceu uma mulher com os
seios nus foi O Homem do Prego
(1964), com Rod Steiger, e isso seria inconcebível um ano antes. Um ano depois
tudo era permitido.
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Havia também
muita transferência das tendências da
nouvelle vague para os filmes americanos.
Por exemplo, em O Homem que
Odiava as Mulheres (1968), com Tony
Curtis e Henry Fonda, a gente via coisas
que o Alain Resnais tinha feito em O
Ano Passado em Marienbad (1961). A
violência explícita também começou a
aparecer. Era a primeira vez que se via
uma pessoa atirando em outra no mesmo
enquadramento. Até então você filmava
a cena em dois planos, um do cara
atirando e um corte para o outro caindo.
DL – O crítico Antônio Moniz Viana escreveu
em 1972 que o cinema havia
acabado naquele ano, com a morte do
John Ford. Você também acha que a
grande fase do cinema estadunidense
acabou nos anos 60?
RC – Na minha visão, até os anos 60 tivemos
os grandes filmes, e alguns bons também
nos anos 70. Mas isso varia de crítico
para crítico. Talvez o Moniz quisesse dizer
que houve uma ruptura na maneira como
os filmes passaram a ser produzidos, com
o fim do sistema dos estúdios.A partir de
meados dos anos 60, o cinema já começava
a ser feito por pessoas independentes
que se associavam aos estúdios. Nos anos
80 e 90 esse processo foi radicalizado: os
estúdios praticamente só alugavam seus
galpões. Isso alterou a maneira de fazer cinema.
Antigamente, os estúdios faziam 60
filmes por ano, pois sabia-se que um estouro
de bilheteria poderia compensar um
filme que não deu certo. Hoje não. Todos
os filmes são independentes, e se você fracassar
com um deles, não faz o próximo.
Só Woody Allen é exceção a esse sistema,
porque tem gente que acredita no seu cinema,
apesar de não render o esperado.
DL – Quando você trabalhou como repórter
naquela época chegou a ter vontade
de passar para trás das câmeras?
RC – Não. O máximo que fiz foi durante
uma temporada em Paris, em 1967, enquanto
estudante. Andava pelas ruas fazendo
os travellings do Godard andando
de lado como a câmera faz. Um verdadeiro
travelling humano [risos]. Mas para
fazer filmes mesmo eu precisaria ter me
aproximado muito do pessoal da área,
que fazia tudo aquilo com muito sacrifício.
Muitos desses caras, como o Roberto
Farias e outros, foram assistentes, carregadores,
tudo para poder estar perto de
uma câmera. Mas eu me realizava com o
cinema escrevendo sobre ele.
DL – Antes, críticos de cinema como
Paulo Emílio Salles Gomes, José Lino
Grünewald e Antonio Moniz Viana tinham
uma formação ampla, que parecia dar mais densidade aos seus escritos.
Você acha que os críticos ou os filmes
pioraram?
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