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MELHOR É NÃO SER UM NORMAL
 


Os Mutantes ultrapassaram o rótulo de psicodelismo irônico inerente ao Tropicalismo para se tornar o grupo de rock brasileiro mais cultuado no mundo

 

Em sua edição de fevereiro de 2005, a conceituada revista britânica Mojo, especializada em música pop, publicou uma resenha intitulada “Os 50 discos mais experimentais de todos os tempos”. Na lista, figuram músicos como Miles Davis, Jimi Hendrix e John Coltrane. Os Mutantes, cujo álbum homônimo, de 1968, ocupa a 12ª posição e fica à frente de nada menos que o conceitual e conceituado Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, além de Lumpy Gravy, de Frank Zappa e de The Piper at the Gates of Dawn, da fase mais psicodélica do Pink Floyd.

 

John Bush, crítico do All Music Guide – internacional e gigantesca base de dados musical–, dá ao disco dos Mutantes a cotação máxima. Segundo a avaliação do site, “o primeiroálbum dos Mutantes é uma audição surpreendente. É de longe mais experimental que qualquer disco produzido por bandas psicodélicas inglesas ou americanas da época.”


Nada mau para a estréia de uma banda que, de acordo com o autor da resenha da Mojo,Will Hodgkinson, era formada por “adolescentes brasileiros do LSD que desconstruíram Beatles para reconstruí-los de forma errada”. De fato, à época do lançamento do disco, Arnaldo Dias Baptista tinha 19 anos, seu irmão Sérgio 17, e Rita Lee Jones, 20 anos.

 

O surpreendente conceito de que gozam Os Mutantes na mídia especializada internacionalé fruto da admiração que o trabalho da banda conquistou no meio musical. Artistas da ala mais antenada com a vanguarda da música pop, como Kurt Cobain, Beck e David Byrne, manifestaram e disseminaram seu interesse pelo grupo. Esse interesse foi materializado em 1999, com o lançamento do CD Everything is Possible!, uma compilação de pérolas do repertório mutante, pelo selo Luaka Bop, de Byrne.

 

Aplausos e vaias
Em seu festejado disco de estréia, o jovem trio paulistano contou com o auxílio do maestro Rogério Duprat (1932-2006), prestigiado músico de sólida formação conceitual. Responsável pelos arranjos, Duprat já explorara as principais vertentes da música erudita de vanguarda, da eletroacústica aos happenings de John Cage. Entre as canções gravadas pelo grupo com Duprat, constavam composições assinadas por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben, que se destacavam pelo talento e ousadia musical.


O envolvimento de Os Mutantes com os principais articuladores da Tropicália – movimento que revolucionou estética e estruturalmente a música popular brasileira – teve início quando Gil os convidou para acompanhá-lo na apresentação da canção Domingo no Parque, inscrita no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967. Gil procurava uma base instrumental que se adequasse a seu propósito de chacoalhar as estruturas tradicionalistas da MPB, injetando uma dose de modernidade cosmopolita em sua canção. E Os Mutantes, com a juventude elétrica de suas guitarras, serviram como uma luva. Comungaram com Gil nos aplausos e nas muitas vaias recebidas.


As convulsões sociopolíticas ocorridas em 1968, especialmente na França, originaram várias palavras de ordem que procuravam expressar as reivindicações e os protestos dos manifestantes. Entre elas, uma sintetizava o anseio de liberdade plena da juventude mobilizada: “É proibido proibir.” O tom poeticamente utópico da frase inspirou Caetano Veloso a compor a canção que foi inscrita por ele no 3º Festival Internacional da Canção (FIC). Para acompanhá-lo, os indefectíveis escudeiros tropicalistas: Os Mutantes.

 

 



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