|
A música É Proibido Proibir, apesar de
muito vaiada, foi classificada. Na fase seguinte
das eliminatórias, realizada no Teatro
da Universidade Católica (TUCA), em
São Paulo, manifestou-se a ira conservadora
dos defensores da “autêntica” música brasileira, que não admitiam
|
experimentalismos
estéticos que incluíssem guitarras
elétricas e ritmos “alienantes”.
O público hostilizou ferozmente a apresentação
de Caetano e Os Mutantes. Além das
vaias ensurdecedoras, brindaram os provocadores
artistas com ovos, tomates e bolas de
papel. Para retribuir a agressão do público, a
banda passou a tocar de costas, e Caetano
proferiu um discurso colérico, afirmando, entre
outras coisas: “Se vocês forem em política como
são em estética, estamos feitos!”.
Rock e psicodelia
Para desfazer a imagem de coadjuvantes
do movimento tropicalista, Os Mutantes
apresentaram uma composição própria no
mesmo FIC, Caminhante Noturno, que não
foi classificada. Com o álbum Mutantes, lançado
em 1969, a banda mostrou que tinha
personalidade e talento próprios: das dez
músicas, oito eram de autoria dos integrantes
do grupo, duas em parceria com Tom Zé,
o único ícone tropicalista presente. Esse disco
marca a entrada de Ronaldo Leme, o Dinho,
como baterista da banda.
Ainda em 1969, Os Mutantes são convidados
a tocar no Midem (Mercado Internacional
de Discos e Editores Musicais), em Cannes.
Apresentaram-se também no 4º Festival
Internacional da Canção com Ando Meio
Desligado, uma das músicas de maior sucesso
da carreira da banda, que marca uma guinada
em direção ao rock’n’roll.
Experimentalismo e deboche não faltam
no disco A Divina Comédia ou Ando Meio
Desligado, lançado em 1970. A faixa Meu
Refrigerador Não Funciona, por exemplo, é
uma paródia ao lamento sofrido do blues, em
que Arnaldo canta com voz lamuriosa: “Meu refrigerador não funciona... meu refrigerador
não funciona... e eu já tentei de tudo...” Com
nova formação, a banda tinha agora Arnolpho
Lima Filho, o Liminha, no contrabaixo, substituindo
Arnaldo, que assumira os teclados.
Nesse mesmo ano, Os Mutantes são
convidados para uma temporada no teatro
Olympia, em Paris. Lá encontram um velho
amigo, o artista plástico Toninho Peticov, que
os introduz nas viagens lisérgicas. Era época
das experimentações com drogas psicoativas
alteradoras da consciência, e eles se tornaram
adeptos do LSD.
Com produção a cargo de Arnaldo, o LP
Jardim Elétrico, de 1971, deixa evidente a influência
do ácido lisérgico nas composições
da banda. O álbum seguinte, Mutantes e
seus Cometas no País do Baurets (1972), traz
entre suas faixas uma das canções mais famosas
da banda, Balada do Louco (veja o
quadro), gravada posteriormente por vários
artistas. De um lirismo despojado e pungentemente
melancólico, a música tornou-se uma
espécie de hino dos freaks, outsiders ou “malucos-beleza”, como diria Raul Seixas depois.
|