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DL – Sempre lecionou em universidade
ou também para o Ensino Médio?
MH – Sempre em universidade. Aqui no
Brasil, na Federal do Amazonas; e nos
Estados Unidos, na Universidade de Berkeley.
Em 2007 retorno aos EUA, mas
dessa vez para Stanford, onde ficarei
quatro meses dando um curso sobre Literatura
latino-americana.
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DL – Você escreveu três livros em pouco
mais de 20 anos. Imagino que deva
reescrever seu trabalho intensamente.
MH – Por conta do magistério, eu não tinha
tempo para escrever. Meu primeiro romance
demorou muito. Então decidi sair
da universidade para me dedicar só à Literatura.
Mas cada escritor tem seu ritmo,
sua maneira de trabalhar. Você só pode
escrever um livro caso suas questões estejam
bem elaboradas, por isso não consigo
escrever uma obra em pouco tempo. Na
verdade, reescrevo o livro diversas vezes; é
um jogo de paciência. Em Dois Irmãos, por
exemplo, meu editor e meus amigos Raduan
Nassar e Horácio Costa leram e fizeram
observações muito pertinentes. Tive
que praticamente reescrever todo o livro,
até porque as observações eram comuns
entre eles. Quando há um comentário isolado
até dá para desconsiderar, mas quando a crítica é recorrente, a vaidade precisa ser
deixada de lado.
DL – A leitura de seus livros nos transmite
a impressão de que você tem um
apreço especial pelo romance do século
19 e começo do 20, uma vez que sua
literatura se assemelha formalmente à
produção daqueles períodos.
MH – Acho uma negligência os escritores
não admirarem a Literatura do século
19, porque os grandes romances foram
escritos naquele período e também na
passagem para o século 20. Balzac,
Stendhal, Flaubert, Virginia Woolf, Proust,
Conrad e outros. Então, não falar do século
19 é abolir o que há de melhor no
romance. Mas há ainda escritores que
acreditam em histórias e personagens
complexos e que não narram linearmente.
Muita coisa que se ouve hoje e
que se chama de ousadia já foi feito lá
atrás: já estava no Proust, no Joyce, no
Faulkner. E para escrever você precisa
primeiro elaborar uma questão, perguntar
qual é o sentido histórico, individual
que você quer dar ao seu romance. Sem
isso ele fracassa. E a linguagem também
tem que ter um vínculo profundo
com a matéria do livro.
DL – Você acha que esse vínculo se perdeu
na segunda metade do século 20?
MH – Sim, perdeu-se porque falta experiência
de vida, de leitura mesmo. Mas
eu li agora um jovem autor, Daniel Galera,
que escreveu Mãos de Cavalo [Companhia
das Letras, 2006], um livro muito
forte. Também li o Sérgio Rodrigues, com
As Sementes de Flowerville [Objetiva,
2006]. São jovens que demonstram ter
alguma experiência de vida. Mas, mesmo
assim, quase sempre é importante
mais tempo para elaborar um texto.
DL – Parece que seus primeiros dois
romances apresentam caráter bastante memorialístico, quase “autobiográfico”,
enquanto no terceiro, Cinzas do
Norte, isso se perde. É isso mesmo?
MH – Eu acho o contrário. Meu terceiro
romance é o mais autobiográfico. Muitos
leitores, porém, têm a mesma impressão
que você. Acho que ela se dá por conta
da questão da imigração árabe ser muito
explorada nos dois primeiros romances;
já no terceiro não há nada sobre isso.
Mas diria que os dois primeiros são os
mais descolados da minha vida. Cinzas
do Norte tem passagens que eu vivenciei
e que depois reinventei. Não é exatamente
aquilo que eu vivi, mas é a partir
de alguns fatos que eu presenciei.
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