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O MENINO DE LÁ
 

 

O caminho de Guimarães Rosa entre a pequena Codisburgo e o olimpo da Literatura brasileira

 

Quarenta anos sem João Guimarães Rosa. Mas para sempre com Riobaldo, Diadorim, Miguilim, Dito, Nhinhinha, Nosso Pai, Sorôco, Brejeirinha, Mula Marmela, Augusto Esteves e tantos outros. Gente por vezes miúda, metida no sertão, mas que se reveste de
extraordinária luminosidade e quentura no verbo e na sensibilidade de seu criador, que “ficou encantado”, pois o “mundo é mágico”.


Rosa nasceu em uma casinha de onde se via a pequena estação ferroviária da cidade. Talvez daí esse olhar de chegar e partir, essa inquietação de quem adivinha o mundo grande e pequeno. Pequeno no estar por enquanto; grande nas possibilidades de estar.

 

Sua obra todo dia amanhece mais cheia de fios, mais plena de possibilidades interpretativas. Para penetrá-laé necessário aprender um idioma, dispor-se a ter um olhar vasto até a náusea, pensar o mundo; mas sobretudo pensar a si mesmo sem reservas. Ter um tanto de religiosidade também é bom. Especialmente no sentido de religar com a substância suprema que deu vida ao Universo. Para isso é preciso atravessar o sertão, que, como se sabe, está em toda a parte.

 

Um regionalismo universal
Ainda que Guimarães Rosa se valha de um espaço regional – em especial do Sertão das Gerais: sul da Bahia, norte de Minas e norte e nordeste de Goiás, e da gente que ali vive –, sua obra prioriza questões universais.

 

O sertanejo em seu espaço vive um impasse existencial que pode ser vivido e/ou compreendido por qualquer um, em qualquer espaço. Esse personagem passa por uma crise existencial, ou por
uma sucessão delas, que o faz rever o seu ser e estar no mundo; ao mesmo tempo uma crise com o universo concreto, àquilo que lhe é externo. Prisioneiro desse processo, o personagem rosiano faz um questionamento profundo e constante do sentido das coisas, da validade de certos esforços, da legitimidade das normas sociais e daquilo que é correntemente aceito como verdadeiro.


Esses movimentos quase invariavelmente conduzem os personagens a uma ascese, a epifanias; eles sofrem um conflito, descem aos infernos de si mesmos, mas emergem renovados, melhores, mais fortes, mais sábios, iluminados. O final último é a alegria, termo abundantemente usado pelo autor, sempre simbolizando a aceitação da condição de ser humano, com tudo que esse sentimento implica, e a tomada de consciência de si mesmo como uma parte essencial do cosmo. A alegria, em Guimarães Rosa, é a elevação espiritual e/ou moral em estado puro. Uma elevação inquestionável, um passo certo rumo ao mundo das formas perfeitas de que falava Platão.

 

O filósofo grego se faz presente na obra de Guimarães Rosa quando o escritor retoma a idéia da existência de dois planos: o mundo sensível e o mundo das idéias, ou das formas perfeitas. O primeiro é aquele em que estamos, mas, apesar de nos parecer real, o que nele vemos não passa de uma projeção do que se passa no segundo, onde residem as formas e idéias perfeitas, verdadeiras e inquestionáveis.

 



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