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Desse modo, retoma-se a idéia de
que a alma é eterna, tem uma espécie
de memória residual do mundo das
idéias e inconscientemente busca
voltar a ele, retomando os referenciais
verdadeiros. Essa ascese muitas
vezes é movida pela dor, pelo conflito:
algo rompe a planura do cotidiano,
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arremessando o personagem numa
crise; o conflito por sua vez leva-o
a um confronto consigo mesmo, e a
um redimensionamento das perspectivas.
O resultado disso na obra de
Guimarães Rosa é sempre positivo.
É importante frisar que esse mecanismo
platônico – que implica ignorância
e obscurantismo
(mundo sensível, estado de
caverna), crise, dor e ascese
(elevação espiritual, ascensão
ao mundo das formas perfeitas,
ou um degrau a mais nessa
direção) – é recorrente em
várias filosofias e religiões. O
mundo das idéias encontra
correspondência no Paraíso
cristão, no Nirvana budista, no
plano último das reencarnações
espíritas, por exemplo.
O sertão e a travessia
O grau de universalismo
que Guimarães Rosa atribuiu
ao sertão é claramente explicitado
pelo autor: “O sertão
está em toda parte”; “O sertão
é do tamanho do mundo”.
Claro está, portanto, o
caráter metonímico desse espaço: a parte (sertão) é metonímia
do todo (mundo e/ou vida).
Freqüentemente para as personagens
de Rosa há a situação da travessia
do sertão. Ela é, naturalmente, a
representação metafórica da travessia
da vida, com seus percalços, com
o que há de luta entre a condição humana
e o universo mundano. Assim,
os personagens rosianos têm a sua
vez, seu momento de ascese. A crise
que desencadeia esse processo move
as personagens em direção a um objetivo,
na tentativa de superá-la; mas
o que finalmente se revela como essencial
não é alcançar essa meta, mas
o que se aprende durante a travessia:“Digo: o real não está na saída nem
na chegada: ele se dispõe para a genteé no meio da travessia.”
As “estórias”
Guimarães Rosa fazia questão de
afirmar que a “estória” não quer ser “História”, denunciando que o importante
não é aquilo que usualmente
fica registrado; seus temas se
valiam de enredos episódicos que
serviam para ilustrar a “travessia”, a
conquista da “alegria”.
Mestre das estórias curtas, escreveu
novelas e contos soberbos, muitos
antológicos, como, A Hora e Vez de
Augusto Matraga. Povoam essas narrativas
personagens diversos: criaturas
em “estado de caverna” aguardando
sua ascese; outros portadores
de uma iluminação especial. Nesseúltimo tipo, destacam-se as crianças,
os loucos, os bêbados, os apaixonados,
os muito velhos.
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