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OTELO OU ÓPERA-BUFA?
 

 

 

 

 

 

A história de Bentinho e
Capitu está entre as obras
mais requisitadas pelos
exames do País

 

Publicado pela primeira vez em 1899, Dom Casmurro, de Machado de Assis (1839-1908) é objeto de acirradas discussões entre leigos, professores e críticos. Trata-se de um duplo perfeito meticulosamente calculado pelo maior romancista da Língua Portuguesa.


Ao analisar o livro, o leitor deve ter em mente que essa é uma obra passível de duas interpretações fundamentais e antagônicas. A adesão a uma ou a outra dependerá da credibilidade que se atribui ao narrador-protagonista. O famoso pomo de discórdia que alavanca as polêmicas em torno do romance é a questão do adultério: Capitu, esposa de Bentinho, teria ou não o traído com Escobar? Mas será esse o problema nuclear da obra, ou mero pretexto para verificar aspectos maiores?


Órfão de pai aos quatro anos, o narrador-protagonista, Bento Santiago – também conhecido como Bentinho –, vivia sob a tutela
da mãe.A viúva, dona Glória, embora moça e bonita, optou pelo luto fechado, disfarçando suas formas em vestidos escuros e sem enfeites, um xale preto e os cabelos presos num coque, ou cobertos por uma touca. Após vender a fazenda em Itaguaí e alguns escravos, mudou-se para a casa da rua de Matacavalos, de onde raramente saía, a não ser para ir à missa.

 

Para ter companhia, chamou seu irmão, Cosme, e sua prima Justina, ambos viúvos, para viverem com ela. Além deles morava em Matacavalos o agregado José Dias, um dos mais interessantes personagens do universo machadiano. Dias era membro honorário da família desde a época em que era vivo o pai de Bentinho, Pedro Santiago. Chegara durante uma onda de febres dizendo-se homeopata e curou com ajuda de seus livros o feitor e uma escrava. Pedro Santiago, assim, convidou Dias para morar na fazenda mediante um pequeno salário.


Logo depois, Pedro foi eleito deputado, e os Santiago mudaramse para a então capital do Império, Rio de Janeiro. Dias os acompanhou. Convocado para examinar os escravos num segundo surto de febre que abateu Itaguaí, confessou que jamais fora médico. O charlatão, porém, já havia conquistado a família. Quando Pedro Santiago morreu, Dias aprontou suas malas, mas dona Glória pediu-lhe que ficasse. Com um “– Obedeço, minha senhora”, concordou, e desde então permaneceu na casa. Assim, Bentinho vivia entre adultos.

 

Superprotetora, dona Glória criara o filho sob estreita vigilância. O menino nem sequer ia à escola; tomava lições particulares em casa, com o padre Cabral. Seu único contato estreito extrafa--miliar era Maria Capitolina, a Capitu, menina da casa vizinha, filha
do Pádua e de dona Fortunata. A família da amiga era digna, todavia menos abastada que a de dona Glória. Prova disso é a bela descrição que o narrador faz de Capitu:

 



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