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A riqueza e a acuidade dos olhos verdes de Clarice Lispector
penetraram todas as camadas do ser e do estar no mundo
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Ela dizia que não era escritora
profissional porque só escrevia
quando tinha vontade.
Não queria compromissos
consigo mesma nem com os outros.
Assim, mantinha sua liberdade.
Felizmente, seu desejo de escrever
era constante. Interrompido
apenas entre uma obra e outra,
quando se dava o tempo de morrer,
ao finalizar um livro, e renascer, ao
começar outro. Sobre a sua vida
pessoal, ela diz, no romance Água
Viva: “Eu não tenho enredo de vida?
Sou inopinadamente fragmentária.
Sou aos poucos. Minha história é viver. E não tenho medo do
fracasso. Que o fracasso me aniquile,
quero a glória de cair.”
Ler Clarice Lispector é uma
aventura de risco. Nas vielas, esquinas
e becos de seus escritos, pulsa
uma intensidade arrebatadora capaz
de levar o leitor a ficar frente a
frente consigo mesmo. Trata-se de
uma artista de alma insone, e quem
respirou seu hálito nunca mais poderá
dormir como antes.
Sua obra denota uma solidão
absoluta. Pode-se ter a companhia
de Clarice Lispector, mas ela jamais
pisou a Terra em companhia
de ninguém, a não ser a da aterradora
sombra de si mesma e de sua
consciência hiperdilatada. Ao leitor
resta a perplexidade transformadora
do contato com uma estranha
que o conhece até a medula,
que percorre os desvãos do mundo
e do ser com uma destreza insuspeita
para o limite humano, sem
negar as asperezas do caminho,
mas sem tombar jamais.
Quando se trata de Clarice Lispector,
o caminho não tem volta,
seja para o enunciador e suas criaturas,
seja para o leitor incauto. O
primeiro grande susto que ela promove é o do ponto de vista. Ao abrir
um livro de sua autoria, descortina-se
aos olhos de quem lê, no mínimo,
uma perspectiva inusitada. Lispector
quebra o eixo da percepção cotidiana
e inaugura um prisma desconcertante.
O mais espantoso:
sem tratar de algo particularmente
extravagante. O habitual desdobrase
em transcendências surpreendentes
e de tal grandeza, que tudo o
que houve antes daquele momento
de revelação fica sob suspeita.
Sob seu olhar agudo, o ínfimo
parece cósmico; o silêncio, um estrondo.
E não importa o quê. O aniversário
de 89 anos de uma velha;
uma patroa de classe média alta
que finalmente adentra as dependências
do próprio apartamento
onde ficava a empregada
demissionária; uma
Joana traída; uma dona
de casa andando de
bonde que avista um cego mascando chiclete na rua;
uma galinha fujona que frustra o almoço
domingueiro de uma família
de subúrbio; uma Sofia que provoca
a sabedoria de um professor primário;
uma nordestina que tenta a vida
na cidade grande. Clarice busca um
estremeção qualquer no cotidiano e
o expande até a náusea.
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