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A APÁTRIDA,
CÓSMICA OU
MACUNAÍMICA?
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, no dia 10 de dezembro
de 1920, no conturbado período pós-revolução russa.
Sua família era judia e tentava escapar da perseguição a
seu povo. Aos dois meses de idade, em companhia de sua
família, percorreu a distância imensa do gelado vilarejo de
Tchetchelnik ao sol abrasador do nordeste brasileiro.
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Aportaram em Maceió (AL), e lá permaneceram quase
três anos. O dia-a-dia era duro. Seu pai, trabalhando como
mascate, ficava longos períodos longe da família. A família,
movida pelas urgências da necessidade, não se deu ao luxo
de crises de adaptação. Até suas identidades foram rapidamente
transfiguradas por uma familiaridade idiomática. O
pai, Pinkouss, virou “Pedro”; a mãe, Mania, “Marieta”; sua
irmã Léia, de 9 anos, tornou-se “Elisa”; e Tania, de 5, foi a única a manter o prenome. A própria Clarice era originalmente “Haia”. Dona Marieta foi acometida por uma paralisia progressiva, o que obrigou a mais velha, Elisa, a assumir
as responsabilidades domésticas.
Depois, transferiram-se para o Recife (PE), onde a autora
passou a maior parte da infância e o início da adolescência.
Nessa cidade apaixonou-se pelos escritos de Monteiro Lobato,
primeiro autor a fasciná-la. Foi lá também que perdeu
a mãe aos nove anos de idade. A mudança para o Recife garantiu
uma presença paterna mais constante, já que Pedro
tornara-se um pequeno negociante. Clarice vivia na bendita
ignorância da própria pobreza. Sua fome desde logo foi de
um pão que não se compra nas esquinas.
Por esse tempo, escreveu sua primeira obra: uma peça
de teatro em três atos, Pobre Menina Rica, cujos originais
se perderam. Escreveu ainda outros textos que, teimosamente,
enviava ao Diário de Pernambuco sem conseguir
nunca que publicassem.
Não se pode dizer, portanto, que sua ascendência ucraniana
tenha lhe rendido heranças culturais significativas.
Foi, e sempre se considerou, uma brasileira. Mais: uma nordestina.
E desde logo solicitou a cidadania brasileira a Getúlio
Vargas por meio de algumas cartas.
A mudança para o Rio de Janeiro, então capital federal,
deu-se em 1935. Lá, Clarice passou a freqüentar diariamente
uma biblioteca na Rua Rodrigo Silva – “lia todos os livros
de títulos bonitos” –, tomando contato com as obras de Katherine
Mansfield, Hermann Hesse, Fiódor Dostoievski, Julien
Green, Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano
Ramos, entre outros.
Concluído o Ensino Médio, cursou Direito na Faculdade
Nacional. Lá conheceu Maury Gurgel Valente, que
mais tarde seria seu esposo e pai de seus dois filhos. Durante
o curso, trabalhou com aulas particulares, tradução
e jornalismo, ao mesmo tempo que efetivava sua
carreira como escritora.
Depois da formatura, acompanhou o marido diplomata,
vivendo como embaixatriz na Itália, Suíça, Inglaterra e nos
Estados Unidos durante 15 anos. Separou-se em 1959 e voltou
ao Brasil. Tinha 39 anos e já era uma escritora de méritos
reconhecidos tanto aqui como no exterior.
Seguiu como jornalista e tradutora, mantendo sempre
as atividades literárias como principal foco de seus interesses.
Em 1967, provocou involuntariamente um incêndio em
seu apartamento, no qual quase perdeu a vida e feriu gravemente
a sua mão esquerda.
Nos dois ou três últimos anos de vida, Clarice dedicouse
também à pintura. O resultado dessa atividade foram 16
quadros. Em 9 de dezembro de 1977, véspera de seu aniversário
de 57 anos, Clarice foi levada por um câncer.
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