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Quando o efeito catártico
do texto nos faz refletir
acerca da permanência
dos mitos
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Em Mensagem, Fernando Pessoa afirmara que “o mito é
o nada que é tudo”. Isto é, se, de um lado, ele não passa de
história, de caso, de fábula, de nada, de outro, é tudo, pois nos
representa no âmbito do imaginário baseado em ações que
são típicas e essencialmente humanas, que se repetem ao infinito,
independentemente das sociedades e épocas. É certo que
os gregos e os romanos antigos foram aqueles que mais adequada
e vivamente entenderam o que isso significa, traduzindo
e representando ações de homens em fabulações poéticas,
que, além de servirem de modelo, chegaram a ser consideradas
perniciosas, tamanha a força vivaz que possuíam – a crítica
platônica à poesia o comprova. Assim, são guias e exemplos
típicos de ações sem idade e unívocas.
É dessa forma que os mitos são reaproveitados sistematicamente,
reutilizados e aplicados às formas mais diversas
de expressão, que podem ser científicas – Freud e Jung são
exemplares– ou literárias e plásticas, e aqui se avolumam nomes a serem lembrados. O que se nota, portanto, é a adesão
dos mitos à vida. E, por isso, Pessoa advertira, paradoxalmente, “Assim a lenda se escorre/A entrar na realidade, E
a fecundá-la decorre”. Desse modo, sempre será inevitável
sua releitura e “redicção”, pois os mitos nos advertem, nos
ameaçam, nos comovem e nos convencem de que somos humanos,
e iguais seremos sempre, isto é, suscetíveis a inúmeras
formas e tipos de ação e reação, impostas pelo inefável e
entediante convívio humano e suas conseqüências mais banais,
ou mesmo, mais inusitadas.
Tragédia latina
Sêneca sempre esteve envolvido com o poder de sua época,
marcada por inúmeras turbulências. Viveu em Roma durante os
governos dos cinco primeiros imperadores romanos (Augusto,
Tibério, Calígula, Cláudio e Nero), ou seja, de aproximadamente
4 a.C. até 65 d.C.A supor que a sociedade, na qual determinado
escritor vive, imprime em seus textos alguma influência, isso
explicaria certa força, violência, crueldade e tensão presente em
sua obra. Afinal, Sêneca “foi hostilizado por Calígula, banido
por Cláudio e condenado à morte por Nero”.
Sua vasta obra compreende gêneros diversos, a saber: cartas,
tragédias e tratados filosóficos, toda ela impregnada, seguramente,
de um matiz estóico, filosofia que ele pretendia difundir
entre seus contemporâneos, fundada na busca da felicidade,
na paz de espírito, na fugacidade da vida e no exercício da virtude,
logo, objetivo de sua literatura.
A produção trágica latina não foi tão vibrante quanto a
grega, no entanto o que nos restou – oito tragédias de Sêneca – demonstra uma grande capacidade técnica, exigida pelo gênero.
A despeito de alguma coincidência temática com as tragédias
gregas, as de Sêneca possuem características próprias
e são marcadas por um colorido diferencial e por uma retórica
acuradíssima – afinal o autor era um grande orador. E sua formação
assume posição de relevo na produção de sua obra. Esses
fatores, provavelmente, influíram para colocá-lo no rol dos
prediletos de Shakespeare (1564-1616), de Racine (1639-1699), de Corneille (1606-1684), ou mesmo, de um padre Antônio
Vieira (1608-1697), por exemplo.
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