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Incansável defensora da volta da democracia em tempos de ditadura, Lygia
Fagundes Telles continua, com Conspiração de Nuvens, combatendo desigualdades
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Imagine um cemitério isolado,
rodeado de terrenos baldios,
um cemitério mais silencioso que
todos os outros cemitérios. Imagine
um encontro marcado ali por
um ex-namorado. Só isso já basta
para arrepiar todo o corpo, não
é verdade? Lygia Fagundes Telles
tem a virtude de ser uma autora
fascinante e eclética. No conto citado
(Venha Ver o Pôr-do-sol), ela
consegue nos causar terror. Mas
em muitos outros tem habilidade
de nos emocionar (Natal na Barca),
ou fazer com que nos confrontemos
com sentimentos terríveis,
nossos e/ou alheios (Verde
Lagarto Amarelo).
Lygia, vivendo a realidade de
uma escritora do Terceiro Mundo,
considera sua obra de natureza
engajada, assim como se avalia
como uma pessoa comprometida
com a condição humana dentro
das circunstâncias em que encontra
seu país, uma participante
e uma testemunha do tempo em
que vive e da sociedade da qual
faz parte. No livro As Meninas
ou no texto Seminário dos Ratos,
por exemplo, a autora trata de
um período crucial da história do
Brasil: o da ditadura militar. Já
em seu livro mais recente, Conspiração
de Nuvens, lançado neste
2007, o título se refere justamente
a um dos contos do volume em
que Lygia viaja com Hélio Silva,
Nélida Piñon e Jefferson Ribeiro
de Andrade até Brasília, para
entregar um manifesto contra
a censura para o então ministro
da Justiça Armando Falcão, nos
anos de chumbo do governo do
presidente Geisel, em 1976. Os
primeiros nomes da lista do manifesto,
para ter uma idéia, eram
os de Antonio Candido e Sérgio
Buarque de Holanda.
Este último livro de Lygia retoma
sua inclinação para escrever
sobre memória e invenção e
volta a uma de suas citações preferidas,
de santo Agostinho, que
diz que “a memória é a casa da
alma”. É o primeiro livro escrito
pela autora depois da morte prematura
em 2006 de seu único filho Goffredo Neto. Em nenhum
momento da obra Lygia faz referência
a essa tragédia, mas o livro
está dedicado às suas netas
Lúcia e Margarida. Como os demais,
esse também é imperdível.
Abismo interior
Lygia é de um engajamento
que colabora para que o leitor vá
para rincões de sua alma “nunca
d’antes navegados”. Com extrema
sensibilidade, a autora nos
confronta com nossos medos,
contradições, angústias, esperanças,
tristezas, tédios, invejas,
ciúmes e tantos outros sentimentos
e pensamentos tão humanos
quanto escondidos de nós mesmos.
Lygia nos remete à beira de
nosso abismo interior, mas nos
faz companhia nessa trajetória,
não nos abandona.
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