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A intervenção militar em Canudos era apoiada e considerada pertinente por grande
parte da população, mas Euclides da Cunha provou, em Os Sertões, a grande
intransigência do episódio
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Serei um vingador e terei
desempenhado um grande
papel na vida – o de advogado
dos pobres sertanejos assassinados
por uma sociedade pulha e
sanguinária!”. Euclides da Cunha
cumpriu a promessa feita ao amigo
Francisco Escobar em carta de
janeiro de 1902. Em dezembro
daquele ano, seu livro Os Sertões
invadiu o Brasil com toda sua aridez
e crueza e abalou para sempre
a história oficial.
A Guerra de Canudos – que
completou, em 2007, 110 anos –
foi um fenômeno sem precedentes
no Brasil. Considerando o que
a gerou, seu decurso e seu horripilante
desenlace, ela faz pasmar
o mais experimentado historiador.
A resistência heróica
do sertanejo contra as forças do
exército contrariou toda a lógica
preexistente e inaugurou um precedente
que balançou os métodos
do poder instituído.
A miséria do Nordeste gerada,
entre outros fatores, pelo flagelo
da seca, já preocupava dom
Pedro II. Durante o século 19, ele
nomeou uma comissão científica
para percorrer a região durante
um período de seca para fazer um
registro fotográfico do fenômeno
e estudar possíveis soluções para
minorar o sofrimento do homem
sertanejo. A iniciativa, entretanto,
não teve continuidade,
e a seca no Nordeste começou a
se configurar sistematicamente
como um problema grave para o
restante do Brasil. O instrumento
de alarme foi a literatura do ciclo
do regionalismo nordestino, inaugurado
em 1928 por José Américo
de Almeida, com seu romance
A Bagaceira. Tal ciclo alcançou
seu ponto alto dez anos depois,
com Vidas Secas, de Graciliano
Ramos, obra que narra a travessia
de uma família de nordestinos
tentando sobreviver à seca.
Os motivos da guerra
Antes de Euclides e do ciclo
do regionalismo, o Estado brasileiro
ignorava o Nordeste. Ignorava
os milhares de mãos vazias, as
crianças doentes, os estômagos
ocos, os homens sem trabalho,
os corpos atrofiados de miséria,
sem teto que os cobrisse. Mas de
toda desgraça alguém tirava (e
tira) vantagem. Aquela conjuntura
disponibilizava muita mão-de-obra pronta para trabalhar em
troca de casa e comida – espécie
de escravidão eufemizada.
Antônio Conselheiro surgiu
nesse contexto desolador do início
da República. Nascido em
1830, no município de Itabaiana,
Sergipe, foi batizado Antônio
Vicente Mendes Maciel. Consta
que, já adulto, sua figura era
impressionante: cabelos longos
precocemente grisalhos, barba
inculta, também embranquecida, comprida até o peito, esquálido
de magro, queimado de suas
andanças no sol, face enrugada,
vestia um hábito de algodão azul
desbotado, chapéu de abas largas,
sandálias, levando às costas
um velho bolsão de couro com
papel, pena, tinta, as Horas Marianas
e a Missão Abreviada. Ou
seja, apresentava-se de modo semelhante
ao que Cristo recomendava,
nos quatro Evangelhos, aos
seus apóstolos. Suas pregações
anunciavam um apocalipse iminente
(na grafia original):
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