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Ele ainda não foi pra escola no
sentido de ser adotado, lido e
apreciado como merece, mas muitos
jovens antenados o conhecem
pela música Língua, de Caetano
Veloso, na qual ele é citado.
Glauco Mattoso é pseudônimo
do paulistano de 56 anos
Pedro José Ferreira da Silva, e é
alusivo ao glaucoma congênito
que o cegou na década de 1990, bem como a dois de
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seus referenciais
poéticos, Gregório de
Matos e Gilka Machado. Embora
tenha participado da “poesia
marginal” e assimilado influências
concretistas, não pode ser
enquadrado nessas correntes,
por causa da trajetória pessoal,
marcada, tematicamente, pelo
radicalismo fescenino e escatológico,
e, formalmente, pelo
resgate de moldes rígidos como
o soneto e a décima. Tradutor
de poetas latino-americanos,
recebeu em 1999 o Prêmio
Jabuti por colaborar na edição
brasileira da obra completa de
Borges. Autor de Jornal Dobrabil
(1981, reeditado em 2001) e
de Poesia Digesta: 1974-2004,
entre dezenas de obras em verso
e prosa.
Caetano Veloso já deu o toque.
Só falta as professoras acordarem
seus alunos para este grande
poeta contemporâneo.
DISCUTINDO LITERATURA – Quemé você na poesia brasileira hoje?
GLAUCO MATTOSO – Vou ser franco.
Já fui modesto quando devia
ser arrogante. Agora vou ser justo
comigo mesmo. Fui marginal e
vanguardista enquanto podia ver,
mas tomei muito semancol e não
fiz propaganda. Agora que estou
cego e me superei, cansei de ser
boicotado por ter me promovido
pouco, e abro o jogo: sou o maior
sonetista vivo da língua portuguesa,
e posso provar isso, com
mais de 2 mil sonetos corretos na
forma e incorretos no tema.
DL – Fora a poesia, onde o público
conhece mais seu trabalho?
GM – Como bom pós-maldito
(prefiro me definir assim, em vez
de pós-moderno), atuei e atuo em
várias praias: quando enxergava,
fiz poesia visual, quadrinhos, letra
de música, ensaio, conto, romance,
dicionário, crônica e colunismo
nas mídias. Hoje ainda
faço quase tudo isso, com o detalhe
de que o colunismo é, agora,
também virtual, como na revista
eletrônica Cronópios (www.
cronopios.com.br). Na mídia
impressa, o leitor me acha, por
exemplo, na Caros Amigos.
DL – Dá para viver de poesia no
Brasil?
GM – Dá para viver em qualquer
lugar do planeta e até de outras
galáxias, com o perdão do Haroldão.
Só não dá para ganhar a vida
com ela. A grana, a gente ganha
fazendo outra coisa, e a poesia, a
gente respira, bebe e come.
DL – Bota aqui um poema seu, o
que você mais gosta, ou trechinho,
se for muito longo.
GM – Vai um “limeirique”, que é
quintilha exata. Nas oficinas que
dou, costumo definir a poesia como“uma metralhadora na mão
dum palhaço”. Este limeirique
ilustra a frase:
Um saltimbanco de Franca
viu no lixo uma metranca.
Em vez de pôr bala,
fingiu dispará-la,
mas de peido é
[o som que banca.
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