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“Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
(...)
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Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.”
O amor
A temática amorosa na obra de Bandeira freqüentemente
vem associada à infância, mais especialmente à passagem da meninice à adolescência,
ao tempo da descoberta do amor por parte do garoto.
As meninas, especialmente as daquela época,
eram criadas num exercício contínuo para o amor
vindouro, para as coisas do namoro, do casamento,
do lar. Já os meninos tinham um contato mais
intenso com a natureza e, quando chegava o tempo
do amor, ainda não tinham cultivado um repertório à altura da nova fase. Um delicioso exemplo disso é
o poema “Namorados”:
“O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com
[o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança
[e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
— Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.”
Certamente o rapaz não quis ofender Antônia.
A “lagarta listada”, no seu repertório de moleque,
era uma coisa bonita, rara, preciosa de se encontrar.
No afã de elogiar a moça, termina por melindrar os sentimentos dela e acabar com qualquer clima romântico
possível.
Há outros poemas, como “O Impossível Carinho”,
em que, de maneira um pouco mais indireta,
o enunciador propõe à mulher amada a dádiva mais
preciosa, caso pudesse ofertá-la:
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