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“Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
– Eu soubesse repor –
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!”
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Há ainda em Libertinagem aqueles em que a trajetória
do menino ao homem se completa. Como no
magnífico poema “Teresa”, em que o enunciador,
em três tempos, menino, adolescente e, finalmente
homem, vê, por três vezes a mesma Teresa, até sucumbir
de amor.
“A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos
[que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos
[esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre
[a face das águas.”
A doença e a morte
Aos 18 anos de idade, Manuel Bandeira teve o
diagnóstico de tuberculose. Era o ano de 1904, e
ainda não havia cura para a doença, tal diagnóstico,
portanto, equivalia a uma sentença de morte. Arrancado
da faculdade de Arquitetura, Bandeira viu-se
obrigado ao repouso, começando a escrever sistematicamente
nesse período.
Apesar de décadas de sofrimento e de internações,
uma grande ironia: o poeta só viria a falecer aos 82 anos! Mas, quando escreveu os poemas
de Libertinagem, encontrava-se em grave crise, e,
quando finalmente o publicou, sofria há 26 anos os
sintomas desgastantes da doença. Muito do que se
lê nessa obra tem caráter autobiográfico, como em “Pneumotórax”:
“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
— Respire
— O senhor tem uma escavação no pulmão
[esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar
[o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar
[um tango argentino.”
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