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O jornalista, biólogo e autor de Terra Sonâmbula disserta sobre
a característica oralidade de sua obra, fortemente
influenciada por Guimarães Rosa
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Quem pensa que o escritor moçambicano
Mia Couto possui
um temperamento extrovertido
por conta da intensa oralidade de
seus textos pode surpreender-se.
O autor é, na verdade, quase tímido,
se não introvertido e calmo
com as palavras. Sua inventividade
nas conversas é pautada
pelas idéias, sempre colocadas de
forma contundente, sem floreios,
sem o virtuosismo de seus personagens.
Talvez essa objetividade
seja fruto do jornalismo que exerceu
por 11 anos durante a década
de 1970, quando usava a palavra
como arma contra a ditadura. Talvez
seja fruto de seu olhar atencioso,
de biólogo, que gosta de
analisar antes de tirar qualquer
conclusão, como um cientista.
Mia sente que não seria um
autor completo se fosse apenas
escritor. A biologia, o jornalismo
e a medicina foram essenciais para
formar o contador de histórias
que ele é. Isso é evidente em Terra
Sonâmbula (Companhia das
Letras, 1992), considerada uma
das melhores obras africanas do
século 20 por diversas entidades
literárias do continente, adaptada
para o cinema pela portuguesa
Teresa Prata, tendo sido o filme
lançado em agosto de 2007 no
Festival de Montreal, no Canadá.
O livro conta a história de dois
amigos, na Moçambique pós-independência,
que encontram um
diário de relatos imaginosos escritos
por um fugitivo da guerra.
Em certo ponto da narrativa, um
personagem diz: “esta guerra não
foi feita para vos tirar do país, mas
para tirar o país de dentro de vós”.
Esse sentimento de incapacidade
permeia toda sua obra, pois
os oprimidos de guerra são isso
mesmo, povos de almas ausentes
de seus países. E, apesar de
os personagens de seus livros serem
céticos, o autor é otimista e
usa a palavra e a ação como biólogo
para mudar os rumos de sua
terra. Em entrevista à Discutindo
Literatura, Mia nos conta um
pouco de sua trajetória.
DISCUTINDO LITERATURA – Você
tem muito de oralidade na sua escrita,
mas ao mesmo tempo não parece
que a infância tem muita presença
em seus textos...
MIA COUTO – A infância não tem
muita relação com o lugar, mas
acredito que minha cidade natal,
a cidade de Beira, está presente
em meus livros. A infância é um
período de grande aprendizagem,
de se maravilhar com as coisas,
de se encantar com qualquer coisa.
Nesse sentido, a infância não
é uma idade para mim, mas uma
atitude. E essa sensação tem a capacidade
de converter o mundo
em histórias, de criar narrativas.
DL – Tendo vivido em Moçambique,
a questão do racismo foi importante
para você em sua literatura?
MC – Sim, com certeza. A cidade
onde eu nasci é um lugar
onde a discriminação racial é
muito grande. Era tanta que na
minha adolescência não precisaram
explicar para mim o que
era a colonização, por exemplo,
pois eu sentia na pele o
que era o colonialismo. Isso me
fez ter uma atitude de engajamento
político muito cedo na
minha vida.
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