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ESCRITA FALADA
 

 

“Hoje eu não quero ter
uma relação exclusiva
com a literatura.
Ela é uma espécie
de território que eu
quero deixar intacto,
preservando-a daquilo
que seja uma espécie
de relação funcional,
prática com o mundo.”

 

DL – Como foi seu envolvimento com a libertação de Moçambique na década de 1970 e seu período de jornalista naquela década?

 

MC – Eu estava na universidade e fiquei ligado ao Movimento de Libertação, fazendo trabalhos com os estudantes e os soldados de conscientização para que não ficassem contra aqueles dentro da máquina que estavam lutando pela liberdade do país. Eu estava fazendo o curso de medicina em 1974 e me pediram para abandonar os estudos e me dedicar às atividades políticas. Nessa ocasião, comecei no jornalismo, profissão que exerci por 11 anos, e entrei nela um mês antes do golpe de Estado que derrubou a ditadura de Salazar em Portugal, em 74. Depois aconteceu a independência, e Moçambique não tinha quadros; fui então nomeado diretor de diversos órgãos de informação. Essa não foi uma decisão muito feliz porque não tinha nenhuma vocação para dirigir. Eu gostava mesmo era de ser repórter. Mas durante esse período eu conseguia fazer um jornalismo engajado, a serviço da revolução, e isso eu fiz com grande dedicação. Hoje reconheço que havia muita coisa que não faria novamente, mas essa foi uma entrega de alma num período muito ético da história de nosso país, quando estávamos reconstruindo uma nação, embriagados por uma causa. Depois houve um divórcio entre aquilo que era a prática e o discurso, e pedi para sair do governo. Depois me formei em biologia, fui trabalhar com ecologia, mas mantenho com o jornalismo uma relação de colaboração estética. Ainda contribuo para alguns órgãos de informação de Moçambique e acredito que isso é cumprir um dever de cidadania, de intervir não apenas por meio dos livros, mas onde for possível, como no jornalismo. Há outras áreas para as quais contribuo também, como o teatro. Como você deve imaginar, o livro em Moçambique é um objeto de luxo, e para nos comunicar com o mundo é preciso usar outros caminhos.

 

DL – Você disse que é biólogo também. Como essa profissão influencia na sua escrita e por que a escolheu?


MC – Influencia bastante. Eu acredito que há uma certa aprendizagem, uma intimidade com os seres vivos e uma lógica para perceber a coisa viva que não apenas o discurso biológico é capaz de apreender. E a poesia é uma dessas possibilidades de abordagem, de aproximação para olhar o mundo. Mas certamente o desejo de ser biólogo veio de uma paixão. Lembro que desde criança tinha o sonho de trabalhar numa reserva, num parque. Vivia apaixonado pela idéia de trabalhar com os grandes mamíferos. Estudei medicina por engano e, para o bem da medicina e dos doentes, desisti da profissão. Mas hoje eu não quero ter uma relação exclusiva com a literatura. Ela é uma espécie de território que eu quero deixar intacto, preservando-a daquilo que seja uma espécie de relação funcional, prática com o mundo. Uma coisa é aquilo que eu faço como profissão, que é a biologia, que me ocupa nove, dez horas por dia, e outra coisa é aquilo que faço porque acontece quase como uma doença que me ocorre, que me assalta. Não quero manter essa relação integral com a escrita. Não quero ser um escritor. Não sou daqueles escritores que dizem que se deixar de escrever, deixa de respirar, de viver. O que é vital para mim é ter uma relação criativa com as coisas, com os outros e posso fazer isso com várias outras coisas além da literatura.

 



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