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MÚLTIPLA HUMANIDADE
 

 

 

Por meio de ficções como Cidades Invisíveis e ensaios como Por que Ler os Clássicos, Italo
Calvino ajudou a repensar a literatura do terceiro milênio como arte pluralista

 

As pessoas costumam se referir a ele como “escritor italiano”, mas Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, no ano de 1923 – o que faz dele cubano. A data do nascimento é 15 de outubro, portanto o signo no horóscopo é Libra – nada mal para um literato, se levarmos em conta que, em italiano, a palavra “livro” escreve-se “libro”.

 

Logo depois, a família voltou à Itália e Calvino passou a infância em San Remo com seus pais, os botânicos Mario Calvino e Evelina Mameli. Foi convocado a servir o partido fascista e, por divergências ideológicas, não só se recusou, mas se uniu à resistência italiana de oposição ao ditador Benito Mussolini. Até 1956, fez parte também do Partido Comunista Italiano. A invasão soviética na Hungria desagradou ao escritor e o levou a criticar o partido e, no ano seguinte, deixá-lo.


Seu primeiro livro chama-se A Trilha dos Ninhos de Aranha (Il Sentiero dei Nidi di Ragno, no original italiano) e foi publicado em 1947. Tanto este quanto os textos seguintes resgatavam essas experiências de resistência partisan e de guerra. O título, quando faz menção a trilhas, tem bastante a ver com o escritor, que durante toda sua vida abriu e apontou novos caminhos para a literatura. Notadamente experimental, Calvino foi responsável por diversas tentativas de tornar menos padronizada a escrita do século 20.

 

Escrita imprevisível
Um exemplo de ruptura literária é o primeiro livro em que Calvino escapa levemente dos temas da resistência comunista. O Visconde Partido ao Meio (Il Visconte Dimezzato), primeiramente publicado em 1952, conta a história de um visconde italiano que, em uma batalha contra os turcos, é atingido por uma bala de canhão. A partir desse dia, Medardo, o tal visconde, é separado em duas metades: uma boa e uma má, ambas igualmente incômodas – o que faz a população local se unir para costurá-las de volta e, assim, livrar-se das chateações.


O mundo fantástico de O Visconde Partido ao Meio é um bom retrato do estilo de Calvino, repleto de cenários fictícios com inúmeros detalhes. Sua escrita imprevisível, que assume diferentes facetas a cada texto, faz a experiência da leitura ainda mais proveitosa. Ao reinventar narrativas medievais, Calvino enveredou por outras ficções como O Barão nas Árvores (Il Barone Rampante, 1957) e O Cavaleiro Inexistente (Il Cavaliere Inesistente, 1959).

 

A primeira é a história de um barão que, para evitar ter de comer escargot, resolve passar o resto da vida em cima de árvores. A segunda conta o que aconteceu com a armadura que não tinha um cavaleiro dentro dela. São exemplos do bom humor do escritor – muitas vezes um recurso que, aliado à sua erudição, disfarçava na verdade alguma grande ironia.

 



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