CASTELO DE CARTAS
Depois de viajar pelas trilhas de uma floresta,
um viajante chega a um castelo. É recebido por
cortesãos silenciosos, que não conversam com ele
nem entre si. Ele próprio de repente não consegue
mais falar. Estão todos misteriosamente mudos, e
aflitos por não conseguirem contar uns aos outros
as suas tristezas e alegrias. Nesse momento alguém
tem a idéia de pegar na mesa um baralho de tarô
e, usando as cartas, narrar uma história. Os demais
seguem o exemplo, inclusive o protagonista. São
relatos fantásticos de aventuras diversas, dentre os
quais surgem algumas já conhecidas do leitor, como
a narrativa do príncipe da Dinamarca, Hamlet.
O Castelo dos Destinos Cruzados é uma das
obras mais experimentais de Calvino. Traz, nos
cantos das páginas, reproduções das cartas
utilizadas pelos narradores e, no final do livro,
um diagrama que une todas as cartas e todas
as histórias num grande labirinto – é quando
percebemos onde é que os destinos se cruzam.
O enredo é quase uma desculpa para o autor
abordar, nesse romance, o processo criativo do
contador de histórias. Calvino parece querer que se
perceba que o escritor (ou seja, ele próprio) não é
muito diferente de qualquer um dos personagens
mudos – se ambos quiserem contar alguma coisa, vão
ter que encontrar os meios possíveis: um vai escolher
as melhores cartas do baralho, e o outro as melhores
palavras do dicionário. Dessa forma, a arte narrativa
aparece acima de tudo como uma questão de escolha.
O baralho de tarô representa, no livro, todas
as possibilidades narrativas, a partir das quais se
constroem as histórias contadas, que, por sua vez,
podem gerar tantas outras. As cartas – símbolos
do inconsciente coletivo, como “A Morte” e “A
Roda da Fortuna” – são a matéria-prima dos
personagens desesperados por dividir suas aflições.
O livro é às vezes repetitivo, sobretudo quando
o leitor já absorveu a estrutura narrativa e, uma
vez em posse dela, já não se surpreende mais com
os relatos dos personagens. Mas, ainda assim,
permanece uma obra-prima essencial para leitores
e escritores – principalmente os interessados em
entender a literatura mais profundamente e, com
base nesse entendimento, modificá-la.
O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino (Companhia das
Letras, 1991)