newsletter
 

nome:

e-mail:














 
MÚLTIPLA HUMANIDADE
 

 

Calvino casou-se em 1964 com a tradutora Esther Judith Singer. Continuou a testar os limites da literatura e, eventualmente, rompê-los – via o ato de escrever como o ato de seguir certas regras ou transgredi-las deliberadamente.

 

Em 1972 publicou seu livro mais celebrado, As Cidades Invisíveis (Le Città Invisibili), no qual Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan as cidades que visitara em suas viagens – lugares surreais que, apesar de não existirem, convencem não somente a Khan, mas também ao leitor. Em 1973 publicaria outra obra importante de sua bibliografia: O Castelo dos Destinos Cruzados (veja o quadro “Castelo de cartas”).

 

Italo Calvino sofreu uma hemorragia cerebral e, após ser internado, morreu em 19 de setembro de 1985, perto de completar 62 anos. Os livros que deixou de legado à humanidade transbordam sua paixão pelas palavras e suas possibilidades.

 

CASTELO DE CARTAS


Depois de viajar pelas trilhas de uma floresta, um viajante chega a um castelo. É recebido por cortesãos silenciosos, que não conversam com ele nem entre si. Ele próprio de repente não consegue mais falar. Estão todos misteriosamente mudos, e aflitos por não conseguirem contar uns aos outros as suas tristezas e alegrias. Nesse momento alguém tem a idéia de pegar na mesa um baralho de tarô e, usando as cartas, narrar uma história. Os demais seguem o exemplo, inclusive o protagonista. São relatos fantásticos de aventuras diversas, dentre os quais surgem algumas já conhecidas do leitor, como a narrativa do príncipe da Dinamarca, Hamlet.


O Castelo dos Destinos Cruzados é uma das obras mais experimentais de Calvino. Traz, nos cantos das páginas, reproduções das cartas utilizadas pelos narradores e, no final do livro, um diagrama que une todas as cartas e todas as histórias num grande labirinto – é quando percebemos onde é que os destinos se cruzam.


O enredo é quase uma desculpa para o autor abordar, nesse romance, o processo criativo do contador de histórias. Calvino parece querer que se perceba que o escritor (ou seja, ele próprio) não é muito diferente de qualquer um dos personagens mudos – se ambos quiserem contar alguma coisa, vão ter que encontrar os meios possíveis: um vai escolher as melhores cartas do baralho, e o outro as melhores palavras do dicionário. Dessa forma, a arte narrativa aparece acima de tudo como uma questão de escolha.

 

O baralho de tarô representa, no livro, todas as possibilidades narrativas, a partir das quais se constroem as histórias contadas, que, por sua vez, podem gerar tantas outras. As cartas – símbolos do inconsciente coletivo, como “A Morte” e “A Roda da Fortuna” – são a matéria-prima dos personagens desesperados por dividir suas aflições.


O livro é às vezes repetitivo, sobretudo quando o leitor já absorveu a estrutura narrativa e, uma vez em posse dela, já não se surpreende mais com os relatos dos personagens. Mas, ainda assim, permanece uma obra-prima essencial para leitores e escritores – principalmente os interessados em entender a literatura mais profundamente e, com base nesse entendimento, modificá-la.

 

O Castelo dos Destinos Cruzados, de Italo Calvino (Companhia das Letras, 1991)

 



Copyright © 2005
Escala Educacional