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ASAS CORTADAS
 

 

 

 

 

 

Novela muito cara a Lima Barreto, Clara dos Anjos apresenta fortes traços da personalidade de um dos mais importantes escritores brasileiros

 

A obra mais conhecida de Lima Barreto e mais pedida em vestibulares Brasil afora é, sem dúvida, Triste Fim de Policarpo Quaresma, que saiu pela primeira vez em forma de folhetim na edição vespertina do Jornal do Commercio, a partir de 11 de agosto de 1911. Dois anos antes, o autor publicava em Portugal Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pela Livraria Clássica Editora. Desse livro, nada recebeu a título de direitos autorais, embora tenha proposto ao editor A. M. Teixeira trocar seus direitos por 50 exemplares da obra. Segundo testemunhas da época, o pedido não foi atendido. Mas Clara dos Anjos – outro trabalho que lhe tirou o sono – foi, provavelmente, a primeira experiência ficcional do romancista. E, embora não seja tão recorrente nas provas de literatura e língua portuguesa, é uma obra muitas vezes requisitada pelo seu forte caráter histórico-social.


É de 1904 a primeira tentativa de desenvolver a história, que fazia parte de um projeto mais ambicioso: Lima Barreto tinha a intenção de escrever o romance da escravidão negra no Brasil. Em janeiro de 1905, o autor registrava em seu diário: “(...) escrevo aqui uma idéia que me está perseguindo: pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopéia (...) Como exija
variada pesquisa (...) e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde.”

 

Morte prematura
Já na segunda edição de Recordações do Escrivão Isaías Caminha, romance que também tem muito de autobiográfico, publicado pela editora Revista dos Tribunais, do Rio de Janeiro, em 1917, lê-se na página 221: “Cinco capítulos da minha Clara estão na gaveta; o livro há de sair...” Mais tarde, o tema seria retomado pelo escritor, que o resumiu no conto Clara dos Anjos, publicado na revista América Latina, em dezembro de 1919 e depois incorporado ao volume Histórias e Sonhos, de 1920.


Lima Barreto morreu prematuramente aos 41 anos, sem ver publicada a versão integral da novela Clara dos Anjos, que concluiu somente em seus últimos meses de vida. Escrita pouco antes da Semana de Arte Moderna, entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922, a obra sairia pela primeira vez na revista Sousa Cruz, em 16 capítulos, entre janeiro de 1923 e maio de 1924. Só seria editada em livro em 1956, pela Brasiliense, com organização
de Francisco de Assis Barbosa e colaboração de Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença. Os manuscritos, as notas e os planos feitos pelo autor para a criação da obra, bem como sua primeira versão impressa, pertencem hoje ao acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

 



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