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Meu nome é Inés Suarez, habitante da leal cidade de Santiago de
Nova Extremadura, no Reino do Chile, neste ano de Nosso Senhor de 1580.
Não tenho certeza da data exata do meu nascimento, mas a minha mãe
assegura que nasci depois da grande fome e do tremendo surto de peste
que assolou a Espanha logo após a morte de Filipe, o Belo (…) A rainha
Joana, ainda uma jovem e bela mulher, percorreu Castela |
durante mais
de dois anos, transportando o esquife de um lado, abrindo-o de vez em
quando para beijar os lábios do marido, na vã esperança de que pudesse
ressuscitar. Apesar dos unguentos do embalsamador, o Belo fedia.
(Inés da Minha Alma)
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Isabel, ela mesma
Ao contar a saga da família
Trueba, Isabel se conta, se expõe
ao leitor nua e crua sob as inúmeras faces do feminino que
confluem no romance em personagens
que são múltiplas e ao mesmo tempo únicas. Embora o
romance gire em torno da figura de Esteban Trueba, as mulheres
são a grande força agregadora da narrativa. Não por acaso, essas
protagonistas são nomeadas por substantivos que evocam a
cor branca, a luminosidade. São
elas Clara, Blanca e Alba, três gerações
que atravessam o século 20 com coragem e determinação,
integrando-se como um todo que gera simultaneamente passado,
presente e futuro.
Do mesmo modo, o romance
Paula (1994) teve uma motivação
biográfica. Após uma perda dramática,
Isabel escreve uma outra carta na qual agrega reencontro
e tentativa de reconstrução da filha morta, com um discurso político
que dê conta de recuperar um momento singular da história
chilena, oscilando entre os embates da esquerda socialista e
da direita financiada pelo capital
estadunidense. Articulada numa
escrita pungente, sob a forma de
um monólogo interior, a narrativa Paula responde ao que o estudioso
russo Mikhail Bakhtin afirma a propósito do romance biográfico: minha contemplação
de minha própria vida é apenas
uma antecipação da recordação
dessa vida pelos outros.
A Isabel Allende narradora é uma personagem costurada de
tantos outros eus narrativos como
se fosse possível que ela se arquitetasse como um ser de mil
faces cujo propósito é se revisitar
continuamente num labirinto de
si mesma. Assim temos que seu
romance A Soma dos Dias (2007)
conta para Paula como a vida da
família se transformou após seu
falecimento. E é esta mesma circularidade
que faz a autora retornar
a personagens de A Casa
dos Espíritos nos livros A Filha
da Fortuna (1999) e Retrato em
Sépia (2000), assim como Eva
Luna (1987) é o mote de Contos
de Eva Luna (1989). Mais que personagens, Isabel constrói pessoas que a acompanham e que acompanham o seu leitor. Mesmo
depois que a última página do livro é encerrada, o livro e seu
universo de personalidades continuam
a reverberar.
Ora, se a biografia da autora
perpassa sua obra, não espere o
leitor defrontrar-se com confissões
que se reduzem ao plano
dos afetos. Pelo contrário, o leitor
que parte para se encontrar com Isabel Allende acaba por deparar com aquelas tantas vozes e discursos temperados pela experiência
estética do fazer literário. A autora empenha-se num contrato
com o real de modo que subjetividade,
imaginário, cotidiano, presente e passado se articulem num fluxo ininterrupto. Pela multiplicidade de discursos, o que se
pretende é manter uma fidelidade
a cenários, a emoções e a um certo panorama do momento – fidelidade que só se torna possível
porque se dá no plano da ficção,
um terreno no qual tudo (ou quase
tudo) cabe.
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