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O Nascimento
de Vênus,
de Sandro
Botticelli
(1485)
VOLÚPIA GASTRONÔMICA |
Um dos livros mais curiosos e inteligentes de
Isabel Allende é Afrodite (1997), uma coletânea
que mistura num mesmo caldeirão contos eróticos,
receitas afrodisíacas e uma pitada de, digamos, um
certo “jornalismo multiculturalista” (lembrando que a
autora é de fato jornalista de formação). Com leveza
e prosa ágil, a autora apresenta histórias e costumes
gastronômicos de diversas culturas, temperando suas
receitas com um bom humor impagável.
As receitas (de autoria da mãe de Isabel,
dona Panchita) geralmente são acompanhadas de
comentários deliciosos e aguçados da autora, como,
por exemplo, o “Salmão Netuno”, em que assevera:“Fácil, rápido, leve e muito estimulante, é o prato
ideal para apaixonados impetuosos. Não se esqueça
de que a massa deve ficar al dente, porque se cozinhar
demais vai parecer que está comendo minhocas”. Em
outra passagem, na qual descreve alguns animais tidos
como afrodisíacos, dedica algumas linhas ao coelho: é o irmão tolo da lebre, um animal peludo e tímido,
que quando está vivo provoca simpatia imediata, mas
cozido tem o aspecto equívoco do gato da família.
Com um repertório de histórias que evocam
desde a Grécia antiga, circulando pela Índia e pelos
Andes, até casos passados com amigos e conhecidos,
Isabel elabora um tratado de simpatia com o bom
apetite, a volúpia e as formas arredondadas. A
motivação do livro também não poderia deixar de ser
mais sugestiva: dois sonhos, em um a autora se via
mergulhada numa piscina de arroz-doce; no outro
devorava, literalmente, o ator Antonio Banderas
numa tortilla com guacamole. |
VOLTA AO MUNDO
Isabel Allende teve o Peru por berço, o Chile por pátria, a Venezuela como exílio e o mundo por
casa. Filha do diplomata Tomás Allende, nasceu em agosto de 1942, em Lima, capital peruana. Após
a separação dos pais, foi viver em Santiago. A mãe casou-se novamente com um diplomata, Ramón
Hudobro, e Isabel ganhou o mundo: Estados Unidos, Beirute, o canal de Suez, etc. Em 1975 se exilou
na Venezuela, onde passou 13 anos. Morou ainda em Bruxelas, na Suíça e reside atualmente, e parece
que definitivamente, na Califórnia, Estados Unidos. Tantos lugares, modos de vida e culturas diferentes
acabaram por dar um viés multiculturalista à sua obra, que prima também por um cruzamento original e
vívido de vozes, povos e realidades plurais.
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