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Em sua breve mas intensa vida,
Ana Cristina César criou uma
poética pessoal marcada por sinceridade e vigor
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O suicídio de Ana Cristina César
aos 31 anos, em 1983, acrescentou
a perplexidade de uma
vocação interrompida a uma das
vozes mais sofisticadas da poesia
brasileira nos anos 1970 e 1980.
Naquela época aconteceu no Brasil
um movimento literário que ficou
conhecido como “poesia marginal”.
Sua principal característica eram os
livros feitos “à margem” do sistema
editorial convencional: edições
independentes, feitas, divulgadas e
distribuídas pelos próprios poetas.
Esse modo alternativo de produção
acabou permitindo a veiculação
de muitos poemas sem qualidade.
Contudo, em meio àquela literatura
descartável, alguns autores escreveram
boa poesia. Assim, registraram
seus nomes como os mais
talentosos da geração.
Dentre esses nomes, destaca-se
o de Ana Cristina César, que a rigor
não foi uma poeta “marginal”,
até por não ter afinidade com uma
das tarefas básicas da “marginalidade”:
a distribuição. Ana, no entanto,
foi amiga de vários desses
autores e chegou a fazer livros independentes
(“marginal por convivência”,
nas palavras de seu biógrafo, Ítalo Moriconi Jr., em Ana
Cristina César: O Sangue de uma
Poeta, Relume-Dumará, 1996).
Raízes caseiras
Ana Cristina Cruz César nasceu
no Rio de Janeiro, em 2 de junho
de 1952. Desde muito cedo, a
menina revelou sua vocação para a
literatura. Quando ainda nem sabia
escrever, ditava seus poemas à
mãe. Aos 7 anos, já publicava poesias
no suplemento literário da Tribuna
da Imprensa.
Para essa precocidade, foi importante o estímulo da família.
Seu pai, Waldo Aranha Lenz César,
era diretor da revista Paz e
Terra, ligado à Editora Civilização
Brasileira e aos movimentos religiosos
protestantes latino-americanos,
e dirigente da Confederação
Evangélica Brasileira. Maria
Luiza César, sua mãe, era professora
de literatura no tradicional
colégio metodista Bennett.
A própria Ana definiu sua casa
como um local de encontro de intelectuais.
Em 1964, a poeta fazia
o primeiro ano ginasial no Bennett,
no qual também estudavam seus
irmãos Flávio (que terminava o primário)
e Filipe (no jardim de infância).
Em razão das pressões políticas
de direita, a professora Maria
Luiza transferiu a filha e Filipe para
o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti,
no qual Ana terminou o ginasial em 1967.
Entrou no Colégio de Aplicação
da Faculdade Nacional de Filosofia (hoje na UFRJ) em 1968: foi
seu primeiro ano no curso clássico.
Ana Cristina participou da intensa
movimentação dos estudantes secundaristas
cariocas e, juntamente
com o irmão Flávio, esteve presenteà célebre Passeata dos Cem
Mil, protesto contra a morte do estudante
Edson Luís por policiais
militares que haviam invadido o
restaurante Calabouço, ponto de
reunião de militantes da esquerda.
Naquele ano, o namorado de Ana,
Luiz Augusto Pereira, levou um tiro
na perna durante uma manifestação
estudantil, em frente ao Consulado
Americano.
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