DL – Bota aqui um poema seu, o
que você mais gosta, ou trechinho,
se for muito longo:
CA – Às vezes eu choro
três vezes quando
vejo os meus filhos mortos.
Eu lhes pergunto:
Doem ainda
suas rótulas Já cessaram os tremores
em seus joelhos?
Vejo-os sobre extenso
barco de pesca
gritando o meu nome.
Dizem-me:
Assassino!
Uma longa rede
estremece sobre mim
e vejo meus três filhos
em longo aceno.
DL – Como é possível, ou mais fácil,
encontrar seus livros e seus
poemas?
CA – Tenho somente um livro
que não se encontra esgotado. É
o Testamentos. Quem se interessar
pode encontrá-lo pelo e-mail
dialetica@dialetica.com.br ou
pelo telefone (11)5084-4544. Como
alternativa sugiro as bibliotecas.
Eu mesmo tenho, com freqüência,
ido a sebos com o objetivo único de encontrar o Arco Vermelho,
ou O Primeiro Inferno e
Outros Poemas, o Salve Salve, O
Pastor, o CD A Outra Metade do
Coração... Porém, tem sido inglória
a minha luta. Do Arco Vermelho,
por exemplo, não tenho nenhum
exemplar, quando preciso
consultá-lo, recorro a amigos.
DL – Quem é que lê poesia hoje na
sua opinião?
CA – Os pesquisadores, os editores,
corrijam-me caso esteja eu
cometendo um erro, mas tenho
notado uma forte relação de jovens
com a poesia. Leitores. Sei
que se trata de um número pequeno
diante de uma população
de 170 milhões de pessoas, mas
devemos acolher isso com carinho.
Precisamos permitir o acesso às comunidades afastadas e
destituídas de tudo aquilo que
projeta o conhecimento. Somente
o conhecimento nos conduz ao
crescimento, e a poesia tem a palavra
como deflagrador.
DL – Os professores poderiam dar
uma força maior para a leitura da
poesia contemporânea?
CA – Tenho uma profunda preocupação
com essa pergunta. O
poder busca sempre um bode
expiatório. Na ânsia de eliminar
os seus erros, consagra um bode.
Sinto hoje os professores como
bodes expiatórios. A política
educacional no Brasil é, na minha
opinião, extremamente inconseqüente.
A partir do momento em
que tivermos a compreensão do
valor da educação, poderemos falar
de poesia com os educadores.
DL – A poesia que chega às escolas é a melhor?
CA – É evidente que se trata de
uma poesia importante, todavia
julgo fundamental a introdução
de novos valores. Não podemos
indiscutivelmente eliminar
Castro Alves, Olavo Bilac, Cecília
Meireles, João Cabral, Drummond,
Gonçalves Dias, etc., mas
não podemos esquecer nomes
como Renata Pallottini, Álvaro
Alves de Faria, Eunice Arruda,
Dora Ferreira da Silva, Carlos
Felipe Moisés, Hilda Hilst. Menciono
aqui apenas alguns poetas
paulistas e estou tratando apenas
da poesia. São poetas que possuem
uma obra significativa e
que estão à margem do ensino.
Graças a abnegados professores,
para ser mais correto, transgressores,
a poesia mais jovem chega às escolas. Felizmente.
|