|
A poesia e a literatura podem auxiliar o historiador a
explicar o mundo e compreender
a natureza humana
|
Hoje em dia, quando falamos
em história ou em literatura,
pensamos em disciplinas estanques,
separadas. A primeira se
ocupa da Verdade e é científica;
a segunda é ficção e se ocupa do
prazer estético, da fruição. Contudo,
nem sempre a distinção
entre as duas existiu, pois entre
os gregos e os romanos da Antiguidade,
a história era considerada
gênero literário, como o
teatro, a poesia épica e lírica, e
como tal deveria ser tratada. Isso
não excluía, porém, suas características
diferenciadas que a
associavam a eventos ocorridos,
com a narração, com o conhecimento
do mundo e dos homens
que nele se encontram.
Aristóteles, filósofo, cuja obra é caracterizada pelo largo espectro de observação do mundo, em seu texto sobre a poesia, A Arte Poética, no capítulo 9, propõe certa reflexão entre as duas, ao afirmar que:
“Não diferem o historiador e
o poeta por escreverem verso ou
prosa (pois que poderiam ser postas
em verso as obras de Heródoto,
e nem por isso deixariam de
ser história, se fossem em verso
o que eram em prosa) – diferem,
sim, em que um diz as coisas que
sucederam, e outro as que poderiam
suceder. Por isso a poesia é
algo mais filosófico e mais sério
do que a história, pois refere-se
aquela principalmente o universal,
e esta, o particular”.
(Tradução de Eudoro de Souza)
Portanto, se as Histórias de
Heródoto poderiam ser postas
em verso e isso não impediria
que seu texto fosse histórico,
então, a conclusão é imediata:
os critérios de análise de ambas
são os mesmos, a não ser o fato
de uma tratar de assuntos que
são gerais, a poesia; e a outra
tratar de assuntos que são específicos
ou particulares, a história.
Por outro lado, se a literatura
e a poesia tratam de eventos
que podem ocorrer, são grandes as possibilidades de encontrarmos
textos poéticos e, portanto,
literários que deitem seu tema
sobre ocorrências que, por obra
do acaso ou pela observação
sistemática dos homens, se tornaram
uma realidade histórica
sob uma perspectiva mais geral.
Assim, a poesia e a literatura
podem auxiliar o historiador
em sua tarefa de explicação do
mundo, de compreensão da natureza
humana.
Sob um aspecto formal, podemos
partir de outro princípio que
norteia a produção histórica e a
literária: o texto. E, dentro desta
chave, o historiador contemporâneo
Hayden White propõe, em
Trópicos do Discurso: Ensaios sobre
a Crítica da Cultura (Edusp,
1994): “Há, porém, um problema
que nem os filósofos nem os historiadores
encararam com muita
seriedade e ao qual os teóricos
da literatura só têm concedido
uma atenção momentânea. Essa
questão diz respeito ao status da
narrativa histórica, considerada
exclusivamente como um artefato
verbal que pretende ser um
modelo de estruturas e processos
há muito decorridos e, portanto,
não sujeitos a controles experimentais
ou observacionais. Isso
não quer dizer que historiadores
e filósofos da história não observaram
a natureza essencialmente
provisória e contingente das representações
históricas e sua suscetibilidade
a uma revisão infinita
dos problemas à luz de novos
testemunhos ou de uma conceituação
mais elaborada”.
|