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Autor por trás da história
Observando essas relações entre
literatura e história, podemos
inferir que durante muito tempo – e isto vale principalmente para
a pesquisa
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histórica do século 19, portanto, idealista e, porque não
dizer, romântica –, o historiador
buscou, a partir de considerações
específicas de certo evento histórico,
traçar certas generalizações
que tornaram a história algo geral
e, assim, mais poético do ponto
de vista aristotélico. Assim, ao
mesmo tempo que pleiteavam o
estatuto científico da história,
implementavam características
subjetivas e pessoais de análise
que não se coadunavam com o
preceito de história como ciência
e aproximavam-na de uma visão
romântica de poesia.
Um fato interessante é que
hoje ainda colhemos os frutos
desse paradoxo: a história, tal e
qual nos é ensinada, prima pelo
poder de síntese e de ilações
gerais, sem que atentemos para
a idéia de que o registro histórico é um texto e, como tal, deve
ser observado. Isto é, um texto
que tem um agente por trás de
si, um autor que possui sua visão
de mundo, suas ideologias
e, assim, o historiador não pode
ser considerado o arauto da verdadeúnica e exclusiva.
Tanto isto é certo que, sobre
o mesmo evento, podemos encontrar visões, enfoques diferenciados.
Um texto que trate
da guerra na Gália do ponto de
vista de Júlio César seguramente
trará por trás de si os interesses
pessoais de Júlio César, bem
como os interesses populares
na República Romana do período,
ao passo que, se nos restassem
narrativas gaulesas sobre o
mesmo evento, o ocorrido teria
outra dimensão, diferentemente
da proposta pelo general romano
que, diga-se de passagem, possui
vasta obra historiográfica, na
qual se encontram seus comentários
sobre a guerra na Gália.
Essa mesma idéia que atinge
a tarefa do historiador também
poderia ser aplicada ao jornalismo
de hoje, desde assuntos
mais prosaicos, como o futebol,
até questões de relevância indubitável
como o aquecimento
global. O ex-jogador e médico
Tostão, em sua coluna na Folha
de S.Paulo de 17 de fevereiro de
2008, mostra como isso pode acontecer, isto é, como uma observação
objetiva dos fatos, ou
melhor, dos eventos, pode estar
a serviço de uma obra de ficção: “Percebi ainda que, quando há
pequena diferença técnica entre
duas equipes, o resultado de um
jogo depende menos desses detalhes
técnicos e táticos e mais do
erro de um árbitro, de uma bola
que bateu em alguém e mudou a
trajetória e tantas coisas inesperadas.
Após o resultado de uma
partida, criamos, com ótimos ou
maus argumentos, uma história
ficcional, que parece muito ou
pouco com a realidade”.
Essa visão na Antiguidade
clássica estava descartada por
princípio, pois pertencia à própria
formação do homem grego,
e, principalmente, à do romano,
o conhecimento de uma disciplina
unificadora dos textos: a retórica.
Contudo, vale aqui eliminar
um preconceito que curiosamente é romântico: a retórica como algo
pejorativo. Hoje, quando falamos “isto é pura retórica”, estamos dizendo
que o discurso ou fala de
alguém é absolutamente vazio,
sem conteúdo. O próprio Dicionário
Houaiss assim propõe em uma
de suas acepções: “discussão inútil;
debate em torno de coisas vãs”.
Tal posição se alinha a uma aversão
ou maldição a que foi submetida
toda teoria clássica do texto no
século 19. O mesmo preconceito
ocorre quando chamamos alguém
de “poeta”, como que esse indivíduo
fosse um ser de outro planeta,
alguém que vivesse no mundo
da lua, fora da realidade – o mesmo
dicionário indica: “aquele que é dado a devaneios ou tem caráter
idealista”. A recusa da teoria poética
e retórica clássicas é um marco
histórico da produção literária romântica
que, como limite estético,
valoriza o individual, o gênio, o
inspirado, o diferente e menospreza,
desqualifica a técnica genérica
que independe de recursos mentais
pessoais diferenciados para
sua consecução.
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