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Há cinco anos, o inquieto e imortal pescador de palavras Waly Salomão saiu de órbita, deixando uma obra vasta e inspiradora
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Faz cinco anos que Waly Salomão
partiu em sua “navilouca”,
rebocado por algum cometa
alucinado, em direção a alguma
galáxia desconhecida. Desbravador
dos sete mil mares, Salomão
não morreu: ficou “encantado”
(conforme o belo eufemismo de
Guimarães Rosa). Não vale perguntar,
assim, onde está Waly? –
brincadeira, aliás, que ele detestava,
porque detestava o óbvio.
Para o leitor marinheiro de
primeira viagem – e que “viajou”
no primeiro parágrafo –, a
primeira pergunta, para começar, é: Quem é Waly? Na faixa 11 do
disco O Silêncio que Precede o Esporro
(2003), da banda O Rappa,
Salomão apresenta-se: “E agora?
Quer dizer: o que é que eu sou?
Meu nome é Waly Salomão, um
nome árabe... Waly Dias Salomão.
Nasci numa pequena cidade
da caatinga baiana, do sertão
baiano, filho de pai árabe e uma
sertaneja baiana. Cresci sob um
teto sossegado/ meu sonho era
um pequenino sonho meu/ nas
ciências dos cuidados fui treinado/
agora, entre o meu ser e o
ser alheio/ a linha de fronteira
se rompeu. Câmara de ecos...”.
Na seqüência, completa: “Eu tenho
o pé no chão, porque sou de
virgem. Mas a cabeça, eu gosto
que avoe (risos)”. Um marinheiro
de pés no chão e cabeça na
lua, como um bom pescador de
palavras deve ser.
A resposta parece insuficiente
para esclarecer o leitor. Segue,
então, a pergunta, nada fácil de
responder – é mais fácil falar do
que é estático, é mais tranqüilo
tratar dos objetos que se oferecem
inertes, prontos para a catalogação,
como borboleta em
coleção? Salomão, que, às vezes
assinava Sailormoon – fazendo
a ponte entre as mil
noites de Bagdá e as
mil e uma noites da
lua –, nunca parou
quieto em nenhum
lugar. Ecoando Mário
de Andrade, é como
se dissesse: “Eu
sou 300, 350”. Difícil
definir um que
sempre foi tantos: Zeus sempre
teve trabalho para acertar seus
raios nos homens em constante
movimento. Há borboletas que
jamais figurarão em nenhuma
coleção. Como Waly, que, dizia,
bem a calhar: “Eu não sou um
fóssil, sou um míssil”.
Muito além da poesia
Na era das burras especializações,
em que os homens assumem
papéis únicos, fixos,
comportando-se como um “fóssil”,
é difícil fixar um “míssil”.
É esse também o entendimento
da crítica literária Leyla Perrone-Moisés na orelha do último
(e póstumo) livro de poesia da
borboleta hiperativa, Pescados Vivos (Rocco, 2004): “De fato,
nenhuma etiqueta colava em
Waly; ele se mexia demais”.
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas
nas janelas do caos
se desprendem dos trapézios
Waly Salomão, em Pescados Vivos
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