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Viram como ler atrapalha?
A
gente fica sabendo de fatos que se não soubesse teria
mais tempo para curtir o próprio umbigo numa boa, sem
ficar indignado e preocupado com a situação
atual de boa parte de nossa juventude.
E também faz o tico e o teco (nossos dois neurônios
que ainda funcionam no cérebro, já que se dividirmos
o quociente de inteligência nacional pelo número
de habitantes não deve sobrar mais que isso per capita)
malhar e suar, em vez de ficarmos admirando o crescimento
do bumbum e do muque no espelho das academias de musculação.
Por
isso, num momento de desalento, decidi que, de agora em diante,
como escritor e professor, nunca mais vou recomendar a ninguém
que leia mais, que abra livros para abrir a cabeça.
A realidade é brutal e desmentiria em seguida qualquer
motivo que eu desse para um jovem tupiniquim trocar a alienação
pela leitura.
Eu reconheço: a maioria está certa em não
ler.
E tem, no mínimo, cinco razões poderosas, maiores
e melhores que meus frágeis argumentos contrários:
1.
Se ler, vai querer participar como cidadão dos destinos
do país. Não vale a pena o esforço. Como
disse o Lula (que não teve muita escola, mas sempre
leu pra caramba), a juventude não gosta de política,
mas os políticos adoram. Por isso é que eles
mandam e desmandam há séculos.
2. Se ler, vai saber que estão mentindo
e matando montes de jovens todos os dias em todos os lugares
do Brasil impunemente; principalmente porque esses jovens
não percebem nem têm como saber (a não
ser lendo) a tremenda cilada que é acreditar que bacana
é mentir e matar também.
3. Se ler, vai acordar um dia e se perguntar
que diabo é isso que anda acontecendo neste lugar,
onde só ladrões, corruptos, prostitutas e ignorantes
aparecem na mídia.
4. Se ler, vai ficar mais humano e, horror
dos horrores, é até capaz de sentir vontade
de se engajar num trabalho comunitário, voluntário
e parar de ser egoísta.
5. Se ler, vai comparar opiniões,
acontecimentos, impressões e emoções
e acabar descobrindo que sua vida andava meio torta, meio
gado feliz.
O espaço está acabando e me deu vontade de lembrar
que ninguém - nem mesmo alguém que não
vê utilidade na leitura pode achar que há um
belo futuro aguardando uma juventude que vai de revólver
pra escola, e lá não absorve conhecimentos,
mas um baseado ou uma carreirinha maneira. Sim, uma pesquisa
realizada pela Unesco em 14 capitais do país aponta
que entre 9% e 18% dos estudantes brasileiros têm ou
já tiveram contato com armas de fogo.
Paro por aqui, já que, apesar destes tristes tempos
verdes e amarelos (as cores do vômito, papito), lembro
também de tantos poetas, jornalistas e escritores que,
ao longo de minha vida de leitor apaixonado, me deram toques
de esperança, força e fé na mudança.
De um especialmente - o poeta Tiago de Melo - com seu verso
comovido e repleto de coragem:
"Faz escuro, mas eu canto!"
Talvez meu pequeno cantar sirva de guia do homem e mulher
de amanhã. E que, lendo mais, ele/ela evitem ter como
única opção para mudar de vida dar a
bunda (e a alma) ou engolir baratas (e a dignidade) diante
das câmeras de televisão.
Ulisses
Tavares escritor
e professor, sempre leu muito. Não ficou rico com isso.
Mas deixou de ser pobre de espírito rapidinho.
www.ulissestavares.com.br - poetaulisses@ajato.com.br
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