Nesses
romances urbanos, o autor prioriza os processos psicológicos,
sem, entretanto, deixar de lado as questões sociais.
A burguesia é focalizada como uma classe que despreza
os menos favorecidos, e a pequena burguesia, que ainda tem
esperança de ascender socialmente, vive conflitos de
ordem ética: até onde transigir para viabilizar
a ascensão? Mas foi com Olhai os Lírios do Campo,
em 1938, que a carreira do escritor gaúcho deslanchou.
Ele alcançou uma popularidade entre os prosadores de
sua geração só comparável à
de Jorge Amado. O romance alcançou rapidamente uma
venda de inacreditáveis 1 milhão de exemplares!
Um aspecto curioso desse autor é sua gigantesca capacidade
de produção. Além de seu trabalho como
escritor – e tudo indica que ele produzia diversas obras
ao mesmo tempo –, era também tradutor e desempenhava
outros trabalhos cotidianamente.
Veríssimo viajou pela primeira aos Estados Unidos em
1941 e, no mesmo ano, reportou essa experiência na obra
Gato Preto em Campo de Neve. Dois anos depois, temendo represálias
da ditadura Vargas por sua posição antifascista,
ele aceitou o convite feito pelo Departamento de Estado Americano
para dar aulas de Literatura Brasileira na Universidade da
Califórnia, em Berkley, Também o Mills College,
de Oakland, no mesmo estado, o chamou para lecionar Literatura
e História do Brasil, e lhe concedeu o título
de doutor Honoris Causa, em 1944. Passou o ano seguinte dando
palestras nos Estados Unidos.
O Tempo e o Vento
Depois desse primeiro ciclo, que inclui ainda Caminhos Cruzados
(1935), O Resto É Silêncio (1943), um livro de
contos, uma novela e vários títulos de literatura
infanto-juvenil, Érico Veríssimo deu início
à missão de escrever sua obra-prima, que lhe
valeu 15 anos de trabalho e resultou na monumental trilogia
O Tempo e o Vento, com mais de 2 000 páginas.
O romance resgata toda a formação do belo estado
do Rio Grande do Sul, desde o século XVIII até
a Era Vargas, tendo como eixo a rivalidade entre as famílias
Amaral e Terra Cambará.
A primeira parte da saga é retratada em O Continente
(1949) que focaliza 150 anos da história riograndense
(1745 a 1895), desde o tempo das guerras pelas fronteiras
empreendidas por portugueses, apoiados pelos nativos brasileiros,
e castelhanos. Depois, entre farrapos e imperialistas, durante
o separatismo; e, finalmente, entre maragatos e florianistas,
na Revolta da Armada, de 1893 até 1895, com o cerco
ao sobrado da família Cambará. É o mais
belo volume da trilogia, trazendo personagens antológicos
como Ana Terra, Pedro Missioneiro e Rodrigo Cambará.
Nele, Érico mostra uma incrível destreza para
transitar entre o lírico e o épico; entre o
intimista e o histórico.
Ana Terra é uma personagem que tem um embate entre
a sensibilidade e a sabedoria inatas e os golpes violentos
que recebe da vida. O resultado disso é uma mulher
que mantém a coluna ereta, inquebrantável. Aprendeu
que a existência é uma sucessão de acontecimentos
e que não podemos nos deixar levar por nenhum dos dois
extremos, a alegria ou a tristeza, pois ambos constituem caprichos
do tempo e, sempre que o vento sopra, algo transformador acontece.
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