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O RETORNO DE
CAIO FERNANDO ABREU
 


Com o lançamento das obras completas do escritor gaúcho,
morto em 1996, fica evidente sua capacidade de esmiuçar
sentimentos sem se esquecer

dos temas polêmicos

 

A cada dia viver me esmaga com mais força.” Essa frase traduz a intensidade do texto de um autor que soube circular com propriedade entre os ritos da contracultura na década de 70, o vazio de gerações nos anos 80 e o boom da modernidade e das epidemias dos anos 90: Caio Fernando Abreu. Falecido em 1996, o autor gaúcho ressurgiu em 2005 com o relançamento de sua obra completa. Já se encontram nas livrarias dois volumes de suma importância em sua carreira.


Em Caio 3D – O Essencial da Década de 70, uma edição bem cuidada traz o primeiro livro de contos do escritor, Inventário do Irremediável, juntamente com contos publicados em periódicos e jornais da época, depoimentos e entrevistas, cartas e poemas. A obra pode ser considerada como uma continuidade das Cartas, editadas por Ítalo Moriconi, em 2002, já que conta com alguns dos textos do começo da carreira de Caio e explica alguns dos contos quase autobiográficos do Inventário...

 

O livro é uma síntese do Caio adolescente e ansioso, leitor de Clarice Lispector e amigo de Hilda Hilst, dois monstros sagrados da literatura brasileira. Em seus textos, a influência de Clarice se mostra clara, vista em contos como O Ovo ou Corujas. Usando de realismo fantástico, o escritor conta a angústia e a pressão da solidão na vida de alguém que se sente esmagado pela dura realidade de ser só ou que vive a mesma rotina todo dia por não ter estímulos para continuar vivo.


A edição do Inventário foi revista pelo próprio autor que, anos antes de morrer, moldou os textos num segundo olhar. Aquela angústia comum de não gostar do que escreve, de achar o próprio texto infantil, é expressa na revisão. O escritor retirou contos considerados como frutos da “imaturidade” e – da mesma maneira como fez com a revisão de seu primeiro romance, Limite Branco – revela em prefácio que burilou a escrita para melhorar a obra.


A prosa de Caio F. – como gostava de se auto-intitular numa alusão ao romance Cristiane F. – se baseia numa cuidadosa narrativa introspectiva, por vezes angustiada, mas sem os pudores e medos de certos autores.


O gaúcho de Santiago do Boqueirão se destacou de seus contemporâneos por abordar temas polêmicos como as drogas e o homoerotismo de maneira direta, sem estigmas, e discutir os relacionamentos de maneira aprofundada, com apego a cada nuance e insegurança. A solidão é tema recorrente em toda a sua obra, que não pretende deprimir, mas investiga fundo, esmiúça cada sentimento há muito escondido.


Com os contos publicados em Caio 3D, o texto fresco e “imaturo” do escritor se destaca pela referência a seus ícones, reunidos num mix bem-sucedido. Uma das características mais marcantes do escritor é a mescla da cultura pop com o cotidiano de seus personagens. A maior parte vive de angústias e reflexões, como se o mal-estar de estar vivo descrito em O Mal-Estar na Civilização, de Freud, fosse bem entendido e incorporado. Há a lacuna, o desejo reprimido, o amor não alcançado, a curiosidade aguçada.

 

 



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