newsletter
 

nome:

e-mail:














 
SENTINELA DO ABISMO
 





Salinger retratou,
em sua principal obra,
o inconformismo da
geração pós-guerra

 

Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que os meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Coperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.”


Com esse tom mal-humorado e voluntarioso, característico da impetuosidade adolescente, o jovem Holden Caulfield, protagonista de O Apanhador no Campo de Centeio, inicia a narração de suas aventuras e desventuras. Publicado nos Estados Unidos em 1951, o romance tornouse em pouco tempo um best-seller, embora a recepção da crítica especializada não tenha sido das mais calorosas. O público em geral, no entanto, se solidarizou com o menino Holden, seus 17 anos e sua crise existencial potencializada por uma exacerbada sensibilidade.

 

O livro rendeu notoriedade a seu autor, J.D. Salinger (Jerome David Salinger), que se tornou ainda mais conhecido por sua proverbial aversão a intromissões em sua vida privada. Salinger sempre foi avesso a entrevistas, não se deixa fotografar, e jamais autorizou a publicação de qualquer material biográfico.

 

Nascido em 1919, em Nova Iorque, desde a década de 1950 ele vive praticamente recluso em Cornish, cidadezinha provinciana no estado de New Hampshire, e não publica uma linha inédita sequer desde 1965. Desde então, vive dos proventos que lhe renderam as edições de O Apanhador no Campo de Centeio (1951), Nove Histórias (1953), Franny & Zooey (1961) e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira (ou Pra Cima com a Viga, Moçada)/Seymour, uma Introdução (1963): dá para ter idéia do sucesso que suas obras alcançaram entre o público de sucessivas gerações.

 

Excentricidades à parte
Além do seu empenho em manter-se afastado da mídia, outras atitudes de Salinger contribuíram para que se criasse em torno de seu nome uma aura de excentricidade quase mítica. Como o fato de não permitir que nenhuma edição de seus textos traga qualquer informação ou comentário adicional sobre o autor ou sua obra. Se você pegar um livro do velho J.D. em alguma estante e procurar por aqueles comentários ou sinopses na contracapa ou nas orelhas (que a bem da verdade muitas vezes não passam de mero merchandising editorial), não vai encontrar nada. Nada de prefácio nem de nota sobre o autor. Salinger exige que suas obras sejam editadas sem floreios ou introduções, contendo só o essencial: o texto. Tudo isso, é claro, fez com que se criasse um ar de mistério em torno do autor, incitando a curiosidade do público, e colaborando para promover seu nome.


Excentricidades e esquemas mercadológicos à parte, a prosa de Salinger, em que se aliam um lirismo pouco convencional e uma linguagem coloquial e juvenil, não só atraiu a geração de jovens desencantados do pós-guerra, como influenciou autores da beat generation. Além do aspecto formal “despretensioso”, podemos vislumbrar na postura e no discurso dos principais personagens de Salinger o inconformismo com a hipocrisia das convenções sociais e a busca por valores essenciais, características presentes nas obras de expoentes da geração beat, como Jack Kerouac, Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg, entre outros. Estilística e espiritualmente, a obra de Salinger tem grande afinidade com a produção dos beats. Como Jack Kerouac, em certa época de sua vida Salinger também buscou a essência na filosofia budista. No entanto, sua obra tem características peculiares, e dado seu idiossincrático apego à privacidade e ao isolamento, ele bem poderia ser qualificado como um “beat eremita”.

 



Copyright © 2005
Escala Educacional