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Fonte
de inspiração para Camões em
Os Lusíadas, a obra de Virgílio,
escritor da Roma imperial,
tornou-se referência na
poesia épica ocidental
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Antes
de começar a abordar o tema, faço aqui um pequeno
parêntese. É comum, todas as vezes que começamos
a ler o maior e melhor poema épico em língua
portuguesa, Os Lusíadas, que nosso professor de literatura
associe a idéia de Renascimento à tradição
cultural greco-romana e, nesse caso
específico, à tradição literária
da poesia épica, mostrando o quanto Homero é
importante como modelo seguido nesse momento histórico
dos séculos 15 e 16. Realmente, não há
como negar que as epopéias homéricas, Ilíada
e Odisséia, são marcos incontestes do mundo
grego. Afinal, até mesmo Platão, séculos
depois da composição desses dois poemas, afirmara,
tratando de Homero em seu livro A República,
que “este poeta ensinou a Grécia”.
Nesse sentido, se o poeta grego é o cerne da civilização
helênica, também o seria para os romanos e, por
conseqüência, para nós, ocidentais. Contudo,
a poesia homérica possuía uma característica
importante e diferenciada, se comparada, por exemplo, ao Camões
épico: a oralidade. Isto é, aquela poesia foi
composta entre os séculos 9 e 8 a.C. e transmitida
oralmente por cantores antes de ser apropriada pela escrita
a partir do século 7 a.C. Tal propriedade determina
as características formais do poema como as repetições
sistemáticas, a presença de epítetos
(aspectos exemplares das personagens) e as formulações
lapidares que percorrem os milhares de versos da obra. Assim,
se por um lado Homero é semelhante a Camões,
por outro ele se distancia gravemente.
Então,
quem é a referência do poeta português
na Antigüidade Clássica? A resposta é imediata
e direta: Virgílio. Tal afirmação seria
até certo ponto irresponsável se não
existisse um argumento de autoridade que a respaldasse.
Todos
sabem que Dante Alighieri (1265-1321), o autor da Divina Comédia,
no século 14, é um dos responsáveis pela
grande síntese da história literária
ocidental, ao associar a cultura medieval católico-cristã
ao mundo clássico greco-latino: afinal, a idéia
de paraíso, purgatório e inferno é, a
um só tempo, cristã e pagã. Sem falarmos
da presença de uma personagem fundamental no texto
de Dante: seu acompanhante ao mundo dos mortos, Virgílio.
Vejam, não é Homero que o acompanha!
Ainda hoje, também, nesse nosso mundo pós-moderno
ecoa a voz de um poeta e crítico estadunidense radicado
na Inglaterra nos anos 20 do século passado, T.S. Eliot
(1888-1965). Ele nos informa sobre a importância de
Virgílio para a cultura ocidental ao propor: “Nenhuma
língua moderna pode pretender produzir um clássico
no sentido que considero Virgílio um clássico.
O nosso clássico, o clássico de toda a Europa,
é Virgílio”.
Fundação
da Nova Tróia
Nascido em Mântua, norte da Península Itálica,
em 70 a.C., Virgílio produziu três grandes obras
poéticas: As Bucólicas, As Geórgicas
e A Eneida. Sua época é a do início do
Império, isto é, momento em que a República
romana sucumbe como conseqüência das guerras civis
e da ditadura de Júlio César. Otávio
Augusto assume a função de príncipe e,
a partir daí, se estabelece uma sucessão, em
certa medida, hereditária que só irá
se extinguir com a queda do Império do ocidente, quinhentos
anos mais tarde (em 476 da nossa era).
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