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MARES NUNCA D'ANTES NAVEGADOS
 

 

 

A obra Os Lusíadas, de Luís
Vaz de Camões, chamada
por Miguel de Cervantes de
“o tesouro luso”, é a maior
epopéia da Literatura
moderna mundial

 

Meio herói, meio bandido, alma sublime que teve uma vida arrebatada por reveses e controvérsias, o poeta português Luís Vaz de Camões (1525-1580) deixou um legado precioso que contrasta vivamente com seu final trágico e miserável. Desse legado, reluzem Os Lusíadas, a maior epopéia da Literatura moderna mundial, na opinião dos mais respeitados críticos. Basta dizer que a obra está traduzida na maior parte dos idiomas da Terra.


Há três grandes poemas épicos, ou epopéias, na Literatura da Antigüidade Clássica: a Ilíada e a Odisséia, ambas gregas e atribuídas a Homero, presumidamente do século 8 a.C.; e a Eneida, do poeta romano Virgílio (século 1º d.C.). As epopéias têm caráter narrativo e relatam feitos ou aventuras grandiosas de um só herói, ou de uma nação inteira.
Os Lusíadas derivam dessa tradição e reconhecidamente se inspiram nos poemas matriciais da cultura helenística.

 

Tendo como base a viagem de Vasco da Gama às Índias, efetivamente realizada entre julho de 1497 e agosto de 1499, a epopéia de Camões narra uma intrincada rede de acontecimentos tecidos em dez cantos. O canto é uma divisão própria da epopéia, e está para esse tipo de narrativa assim como o capítulo está para o romance.

 

Formalmente, o poema apresenta 8.816 versos decassílabos dispostos em 1.102 estrofes – ou estâncias – em oitava rima (ou oitava real), que é uma estrofe composta por oito versos com o seguinte esquema: ABABABCC.


Como é de praxe, a narrativa da epopéia tem início quando a ação a ser relatada já se encontra em andamento. Isso significa que a viagem de Vasco da Gama não foi contada numa cronologia convencional. A “ação” começa quando a esquadra lusa está entre Moçambique e a Ilha de São Lourenço (atual Madagascar). Portanto, mais da metade do percurso de ida tinha sido cumprido (veja o mapa ao lado). É na parada em Melinde que Vasco da Gama retroage, contando ao rei do lugar a História de Portugal e como vieram parar ali, ou seja, a primeira parte do caminho da ida.


Outra praxe é o “concílio olímpico”, reunião de deuses para que eles se posicionem quanto ao empreendimento a ser tentado pelos humanos, que, no caso, é alcançar a Índia contornando o continente africano. Nesse concílio, Vênus, deusa do amor, e Marte, deus da guerra e da força, ficam ao lado dos portugueses; Baco, deus do vinho, dos vícios e prazeres, da colheita e do teatro, se opõe ao projeto. Na perspectiva da época, o Oriente era pagão, portanto a chegada de cristãos poderia ameaçar a hegemonia pagã. Assim, Baco fará de tudo para boicotar os planos de Vasco da Gama.


A intromissão dos deuses nas histórias acontece nas quatro epopéias e se chama “maravilhoso pagão”, ou seja, trata-se de um recurso em que homens e deuses coexistem, dialogam, interagem. O próprio Frei Bartolomeu Ferreira, censor do Tribunal do Santo Ofício da Igreja Romana, quando autorizou a publicação de Os Lusíadas (ainda que com cortes, diga-se), escreveu:

 



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