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BAIANO DE TODOS OS SANTOS
 


 

Sempre marcada pelo tom social, a obra de Jorge Amado foi uma das principais responsáveis por
popularizar o imaginário sensual,
miscigenado e religioso do Brasil

 

Poucos escritores combinaram tão bem em seus romances questões associadas ao drama da desigualdade social brasileira com elementos de sensualidade e do universo do prazer como o escritor baiano Jorge Amado (1912-2001). Homenageado na quarta edição da Festa Literária de Parati (Flip, veja a matéria à pág. 50), sua literatura é, ao mesmo tempo, crítica e amorosa. Desde o início, ele esteve envolvido
com o ideário marxista, buscando em suas tramas enaltecer os conflitos que envolviam as relações de trabalho e de poder em uma sociedade ainda estigmatizada pela condição colonial. Mas os apelos da carne sempre se impuseram nos seus livros, assim como o sincretismo religioso, notadamente as forças do candomblé.

 

Amado esvaziou a sordidez da pobreza e nem por isso deixou de denunciar suas mazelas nem perdeu de vista a luta de classes, à qual se aferrou durante um longo período na política e na arte. O que fazia, naturalmente, era elevar a beleza e o erotismo dos ambientes populares que descrevia. Mostrou os conflitos de uma sociedade aristocrática e pré-industrial e os desatinos dos poderosos, mas, ao longo de sua obra, sempre ressaltou, com propriedade, o componente sexual e multiétnico da formação da cultura brasileira, como também fez Gilberto Freire em sua sociologia. Ambos perceberam os benefícios culturais da miscigenação.

 

Na primeira fase de sua obra – em livros como O País do Carnaval
(1931), Cacau (1933), Suor (1934) e Jubiabá (1935) – foi mais engajado politicamente e buscou seus personagens entre os trabalhadores e os grupos marginalizados da Bahia, que se redimiam buscando consciência na luta de classes, enfrentando exploradores e aderindo ao movimento grevista.


Posteriormente, colocou a “realidade” do trabalhador em segundo plano, abandonou as teorias explicativa e o proselitismo político e se voltou mais para a própria arte literária, para a narrativa e os personagens, mergulhando nas tramas com menos fervor ideológico e maior articulação com os interesses do grande público. O clima sensual se manteve firme em qualquer fase.


Mesmo naqueles primeiros romances de militância, Jorge Amado dissolveu grande parte da tensão entre capital e trabalho no amor e nas paixões interétnicas. Não teve no seu realismo, por exemplo, a mesma ambientação rude e asfixiante de Graciliano Ramos, em livros comoVidas Secas e São Bernardo. Foi sempre mais ameno que ele, seu parceiro na geração regionalista dos anos 30, com quem esteve sempre identificado.


Amado mergulhou na cultura popular, perseguiu uma certa fala brasileira e dissipou qualquer intelectualismo de sua obra. Seus cenários e personagens não definhavam sob o sol escaldante ou sob o peso da angústia, e seus painéis sempre foram mais eróticos e coloridos que os de outros autores realistas brasileiros. Talvez, em parte, porque o escritor jamais tenha sido um homem do sertão e acostumou-se a olhar para áreas e construir cenários mais verdejantes, na Zona da Mata e no Recôncavo Baiano, onde a melancolia e a tristeza não se impunham, ou eram rapidamente dissipadas. O que suas histórias quase sempre realçam é a sensualidade dos trópicos.

 



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