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No período que coincide com a Segunda Guerra Mundial,
Carlos Drummond
de Andrade desenvolve a sua poesia mais engajada politicamente
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Um dos livros mais intensos de Carlos Drummond de Andrade,
A Rosa do Povo (1945) compreende 55 poemas escritos
durante os tempos sombrios da Segunda Guerra Mundial. Trata-se do inventário de uma sensibilidade perplexa diante do
mundo e da condição humana. O olhar de um “eu” que vai “de branco pela rua cinzenta”.
A obra integrou, juntamente com Sentimento do
Mundo (1940) e José (1942), a segunda fase do autor,
momento em que as influências da geração de 1922
do Modernismo brasileiro se atenuaram e a dicção
própria do poeta se adensou. A linguagem
tornou-se menos coloquial e mais sofisticada,
a elaboração das metáforas ganhou
uma originalidade única, e as antíteses,
paradoxos e oximoros, tão próprios de
sua produção como um todo, acumulavam-se para expressar uma perspectiva de
realidade dividida entre o desespero e um
tímido desejo de acalentar esperanças. Os
poemas apresentavam predominantemente
versos brancos, ou seja, sem rima, com
a métrica alternando regularidade
e irregularidade.
Somos muitos e sós
Dos mais de 50 livros de Carlos Drummond de Andrade, A Rosa
do Povo é certamente o que denota maior engajamento do autor com
o seu tempo. Ele partilhava a angústia de uma época trincada por crises
agudas: no Brasil, vivia-se o Estado Novo; no mundo, a Segunda
Guerra Mundial (veja o quadro “Autoridades e preconceitos”).
Duas são as vertentes principais que constituem esse volume: a
investigação do sentido último da existência mediante o embate aparentemente
desconexo entre o indivíduo e o mundo; e o terror mal
contido de pertencer a uma humanidade fratricida, que em menos de
30 anos fizera o planeta incorrer em dois conflitos.
Desse modo, o indivíduo existe num ponto nevrálgico da História,
e o mundo, num flashback doentio de sua existência. Considere o
agravamento desse embate. Trata-se, portanto, de uma obra escrita
em “estado de emergência”, como disse Clarice Lispector.
Assim, nossos olhos ficam “pequenos para ver” a materialidade
hedionda da guerra. Falta-lhes repertório, faltam-lhes antecedentes:
Meus olhos são pequenos para ver
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.
(...)
Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.
(...)
Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.
(...)
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.
(visão 1944)
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